Publicado por: Carlos Borges Bahia
Publicado em 26 de dezembro de 2022

“Eu não posso deixar de pensar que eles (africanos escravizados) serão, no fim das contas, os governantes”. A frase foi escrita no Rio de Janeiro pelo naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882) em seu diário no dia 3 de julho de 1832.

Não se concretizou e não virou teoria, mas serve para revelar visões pouco conhecidas do autor de A Origem das Espécies.

O britânico que revolucionou a biologia com sua teoria da evolução pela seleção natural era um abolicionista convicto.

Era sua “causa sagrada”, como define James Moore, historiador da ciência que mergulhou na visão de Darwin sobre raça e sobre o escravismo e é autor, com o colega Adrian Desmond, de Darwin’s Sacred Cause: Race, Slavery and the Quest for Human Origins (“A Causa Sagrada de Darwin: Raça, Escravidão e a Busca pela Origem Humana”, em tradução literal).

Darwin era um antiescravista, abolicionista. Dedicou parte da carreira para mostrar que as diferentes raças tinham a mesma origem, um ancestral comum — porém, algumas das teorias da época chegavam a dizer, por exemplo, que brancos e negros eram de espécies diferentes, o que muitas vezes foi usado para legitimar a escravidão.

Charles Darwin naturalista britânico

As anotações do naturalista sobre a viagem ao Brasil — onde ficou por quatro meses durante seu périplo de cinco anos à bordo do navio Beagle — estão recheadas de descrições horrorizadas sobre a escravidão.

Em uma delas, ele menciona o caso de uma senhora que morava em uma casa em frente ao local em que estava hospedado no Rio de Janeiro e que guardava parafusos para torturar suas escravas domésticas, quebrando-lhes os dedos. Em outro, que ele define como algo que o marcou “mais que qualquer história de crueldade”, o episódio começa quando Darwin tenta se comunicar com um homem escravizado que o acompanhava em um barco.

Enquanto o cientista gesticulava de forma efusiva para tentar se fazer entender, acaba aproximando a mão do rosto do homem, que, assustado, baixa os braços: ele pensava que o naturalista queria bater em seu rosto, e abriu a guarda para que ele pudesse fazê-lo.

“Nunca vou esquecer meu sentimento de surpresa, repugnância e vergonha por ver um homem grande e forte com medo de se defender do que ele pensava ser um tapa em seu rosto. Aquele homem fora treinado para se habituar a um nível de degradação maior do que o da escravização de qualquer animal indefeso.”

Parte do ideário do cientista vinha de casa. Os Darwin eram uma família abastada repleta de intelectuais liberais. Seu avô, Erasmus Darwin, foi um dos fundadores da Lunar Society, grupo de pensadores que se reunia em noites de lua cheia uma vez por mês na cidade inglesa de Birmingham.

“Era uma família de amantes de artes e, do ponto de vista moral, adepta do que os autores chamariam depois de humanitarismo. Praticavam a compaixão e não gostavam de crueldades, de forma que nunca bateriam em alguém que trabalhasse para eles – daí o choque de Darwin quando se depara com a escravidão no Brasil”, diz Maria Elice de Brzezinski Prestes, professora do departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências (IB) da Universidade de São Paulo (USP).

Ao deixar o Brasil, Darwin escreveu: “Nunca hei de voltar a um país com escravidão”. A frase, que ficaria célebre mais tarde, está no livro A Viagem do Beagle, publicado em 1839 — nos trechos finais de um calhamaço com mais de 500 páginas.

As linhas que abrem essa reportagem, no entanto, estão entre as muitas que ele escreveu em seu diário, mas decidiu deixar de fora dos livros. Nas últimas décadas, essas páginas, hoje acessíveis a pesquisadores e ao público em geral, vêm sendo melhor exploradas.

No dia 3 de julho de 1832, quando Darwin diz acreditar que os escravizados um dia vão governar o Brasil, ele escreve:

O estado da enorme população de escravos deve despertar interesse de qualquer um que entra no Brasil. Ao caminhar pelas ruas, é curioso observar a variedade de ‘tribos’ que podem ser identificadas pelos diferentes ornamentos marcados na pele e pelas várias expressões. Os escravos são obrigados a se comunicar entre si em português e, por consequência disso, não são unidos. Eu não posso deixar de pensar que eles serão, no fim das contas, os governantes. Presumo isso por serem numerosos, por seu excelente porte atlético (especialmente em contraste com os brasileiros), observando que estão em um clima agradável e por ver claramente que sua capacidade intelectual foi muito subestimada. Eles são a mão de obra eficiente em todo o comércio necessário. Se os negros libertos crescerem em número (como deve acontecer), o tempo de libertação total não estaria muito distante.

A provocação sobre o porte físico não é o único comentário que Darwin direciona ao grupo que ele classifica como “brasileiros” nas anotações de 3 de julho:

Os brasileiros, até onde consigo avaliar, possuem uma fatia pequena das qualidades que dão dignidade à humanidade. Ignorantes, covardes, indolentes ao extremo; hospitaleiros e amáveis à medida que isso não lhes dê trabalho; temperamentais e vingativos, mas não brigões. Satisfeitos consigo mesmos e com seus costumes, respondem a todas as observações com a pergunta: ‘Por que não podemos fazer como nossos avós antes de nós fizeram?’ A própria aparência reflete a baixa elevação de caráter. Tipos baixos que logo ficam corpulentos; a face possui pouca expressão, aparenta estar afundada entre os ombros. Os monges diferem para pior nesse último aspecto; é preciso pouca fisionomia para ver claramente estampados perseverança ardilosa, volúpia e orgulho.

As complexidades de Darwin

De um lado, Darwin era um antiescravista, abolicionista. Dedicou parte da carreira para mostrar que as diferentes raças tinham a mesma origem, um ancestral comum — algumas das teorias da época chegavam a dizer, por exemplo, que brancos e negros eram de espécies diferentes, o que muitas vezes foi usado para legitimar a escravidão.

Isso não significava, porém, que julgasse que todas as civilizações eram iguais. Para ele — e para as teorias antropológicas dominantes da época —, os diferentes povos se encontravam em diferentes estágios de civilização, uns mais avançados que outros.

Com o tempo, a própria ciência mostraria que essas ideias, que depois seriam usadas por outros autores como base para teorias científicas racistas como a eugenia, não se sustentavam com evidências.

“Hoje ele [Darwin] nunca teria permissão para ensinar em uma instituição de ensino do Reino Unido ou dos EUA, em qualquer nível. É carregado de estereótipos e preconceitos — assim como quase tudo que foi escrito [naquela época] sobre os mesmos assuntos”, pontuou Moore em um comentário enviado por e-mail à reportagem da BBC News Brasil.

Fonte: BBC News Brasil

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