Publicado por: Carlos Borges Bahia
Publicado em 23 de março de 2023

Nesta reportagem da série do Mês da Mulher, a Secretaria estadual da Educação e a Agência Estadual de Notícias contam a história da professora Rosa Maria Mello Dornelles (61), do Colégio Estadual João Bettega, no Novo Mundo, em Curitiba. Ela é apaixonada por censos e conduziu um projeto da escola junto aos moradores do bairro que resultou em uma lição de cidadania aos alunos.

A atividade aconteceu no entorno da escola, onde os alunos foram à campo no terceiro trimestre do ano letivo. O objetivo era identificar as principais necessidades dos moradores em termos habitacionais e de infraestrutura, como pavimentação, iluminação, coleta de lixo, abastecimento de água. A metodologia era parecida com o censo populacional, mas numa abordagem mais crítica.

Cerca de 70 alunos do ensino médio participaram. Durante três dias eles entenderam na prática como trabalham os recenseadores e perderam alguns medos de convívio social, mesmo distantes da vacinação em massa contra a Covid-19 que só ocorreria dali a alguns meses.

Para a coleta dos dados, as turmas foram divididas e distribuídas por região, sendo devidamente monitoradas e acompanhadas por uma equipe multidisciplinar de professores. No questionário foram incluídas perguntas como: “já houve alguma situação no bairro que fez você pensar em se mudar?”; “a quem você recorre quando precisa de ajuda?” e “você considera este bairro melhor do que aquele em que você morava anteriormente?”. Mais de 100 residências foram visitadas pessoalmente pelos estudantes.

“Para avisar a população do bairro que faríamos a pesquisa, contamos com a ajuda de uma pedagoga que trabalha junto à zeladoria do município. Ela foi responsável por mapear a região e coordenar a distribuição de panfletos para os moradores. Já para o processamento dos dados, contamos com a ajuda de um professor de programação. Foi um esforço conjunto, cujo resultado marcou de forma definitiva a vida dos alunos, que entenderam de maneira muito clara onde vivem, os dilemas locais e as conquistas que ainda precisam alcançar coletivamente”, ressalta.

O saldo positivo da atividade não demorou a aparecer. Ainda antes que os dados coletados fossem catalogados, uma demanda apontada pelos moradores e identificada pelos alunos logo nos primeiros encontros foi resolvida com articulação coletiva. “O Rio Formosa é um dos que cortam a região do Novo Mundo. Ao longo do censo identificamos que, devido ao descarte inadequado, pilhas de lixo e entulho estavam se acumulando nas margens. A água, já seriamente poluída, viraria foco de doenças que poderiam afetar toda a comunidade”, relembra. 

Graças ao apelo dos alunos junto à Prefeitura de Curitiba, a partir dos dados apurados, dois caminhões retiraram cerca de 12 toneladas de lixo das margens poucos dias depois da pesquisa.

“Pertencimento à comunidade”. É desta forma que Fabio Diogo Araújo Rodrigues, aluno do 2° ano do ensino médio do Colégio Estadual João Bettega, resume como se sentiu ao fim da atividade. “Aprendi a observar com mais atenção a realidade da comunidade que, infelizmente, escapa ao olhar da maioria que vive em outros bairros. Um censo ajuda a entender melhor alguma localidade. Com o nosso censo, levantamos um perfil e algumas urgências, o que resultou numa conexão ainda maior entre todos os participantes: moradores, alunos e professores”, afirma.

“Conhecer e aproximar as pessoas, ouvir cada história com atenção, estar a par do cotidiano e debruçar um olhar humano sobre a sociedade. Por meio do censo tudo isso é possível e, certamente, essa experiência será lembrada por muitos e muitos anos pelos alunos. Tal aprendizado contribui para além da formação regular, mas também para a construção do caráter”, ressalta Rosa Maria.

“Agora a ideia é dar seguimento à atividade com as próximas turmas, de modo a buscar soluções para os problemas levantados com a pesquisa e contribuir para a construção de uma comunidade cada vez mais integrada e saudável”, arremata.

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