Publicado por: Carlos Borges Bahia
Publicado em 10 de setembro de 2026

Direita dividida, esquerda em bloco e uma eleição para o Senado que promete pegar fogo no Paraná

O primeiro grande debate entre os candidatos ao Senado pelo Paraná deixou uma certeza: a disputa pelas duas cadeiras do Estado será cada vez mais acirrada — e a divisão do eleitorado de direita pode ser decisiva para o resultado.

Realizado na noite desta quarta-feira (9), nos estúdios da Band Paraná, em Curitiba, o debate reuniu Alexandre Curi (Republicanos), Cristina Graeml (PSD), Deltan Dallagnol (Novo), Filipe Barros (PL), Gleisi Hoffmann (PT) e Dr. Rosinha (PT).

E se alguém esperava apenas uma apresentação de propostas, encontrou um cenário bem diferente. O confronto foi marcado por acusações, provocações e pedidos de direito de resposta. Ao todo, foram 25 pedidos, sendo oito deferidos.

TRÊS DUPLAS EM DISPUTA

O debate também serviu para revelar uma espécie de desenho eleitoral que começa a se consolidar.

De um lado, Deltan Dallagnol e Filipe Barros, representantes de uma direita mais identificada com o bolsonarismo e com o discurso de combate à corrupção.

De outro, Cristina Graeml e Alexandre Curi, que procuraram apresentar uma imagem conservadora, mas sem transformar o debate em uma guerra aberta entre eles.

E, no campo da esquerda, Gleisi Hoffmann e Dr. Rosinha, que demonstraram maior sintonia política e aproveitaram boa parte do tempo para defender o governo Lula e atacar os adversários.

O problema para a direita é evidente: há muitos candidatos disputando praticamente o mesmo eleitorado.

E essa fragmentação pode acabar beneficiando Gleisi Hoffmann, que representa um campo político mais organizado e com maior capacidade de concentração de votos.

DALLAGNOL: CORRUPÇÃO COMO PRINCIPAL ARMA

Deltan Dallagnol entrou no debate com o discurso que marcou sua trajetória política: combate à corrupção e defesa da Lava Jato.

O ex-procurador voltou a destacar os resultados da operação e afirmou que bilhões de reais foram recuperados para os cofres públicos.

Também enfrentou diretamente Gleisi Hoffmann em um dos momentos mais tensos da noite. A candidata petista voltou a questionar a situação eleitoral de Dallagnol, enquanto o candidato do Novo rebateu afirmando que a esquerda não respeitaria decisões judiciais quando elas não atendem aos seus interesses.

O embate entre os dois era previsível — e acabou se tornando um dos principais momentos do debate. A própria Band destacou o confronto entre Dallagnol e Gleisi em temas como Lava Jato, segurança, sistema prisional e elegibilidade.

Dallagnol conseguiu, assim, manter sua principal identidade eleitoral: o candidato da Lava Jato e do combate à corrupção.

FILIPE BARROS ATACA CRISTINA E MIRA GLEISI

Filipe Barros adotou uma estratégia mais agressiva.

O candidato do PL procurou atingir Cristina Graeml, explorando sua mudança de campo político e sua aproximação com o grupo liderado pelo governador Ratinho Junior e pelo presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab.

Cristina respondeu defendendo sua trajetória e explicando sua decisão de aceitar o convite para integrar o grupo governista.

Mas foi Gleisi Hoffmann quem recebeu boa parte da artilharia de Barros.

O deputado procurou associar a candidata petista a posições que considera incompatíveis com os valores do eleitor conservador, especialmente em temas ligados à segurança pública e costumes.

O confronto entre Filipe e Cristina também ganhou contornos específicos ao envolver o Banco Master e a disputa pelo eleitorado de direita.

GLEISI JOGA NO CONTRA-ATAQUE

Gleisi Hoffmann demonstrou que conhece o jogo político.

Ao invés de dividir sua artilharia entre todos os adversários, concentrou seus ataques principalmente em Dallagnol.

A estratégia é clara: se Dallagnol é hoje um dos nomes mais fortes da direita, enfraquecê-lo significa abrir espaço para a segunda vaga.

Gleisi também aproveitou o debate para defender ações do governo Lula e apresentar uma imagem de maior unidade do campo progressista.

Ao lado de Dr. Rosinha, a petista encontrou um ambiente muito menos hostil do que aquele enfrentado pelos candidatos da direita entre si.

CRISTINA E CURI: MENOS ATAQUE, MAIS POSICIONAMENTO

Cristina Graeml adotou uma postura mais cautelosa.

Ao contrário de Filipe Barros, que partiu para o confronto, Cristina evitou transformar sua participação em uma guerra interna da direita.

Procurou reforçar sua identidade conservadora e defender a escolha de permanecer no grupo político de Ratinho Junior.

Antes do debate, a candidata já havia sinalizado suas principais bandeiras, como liberdade de expressão, fiscalização dos Poderes e uma atuação conservadora no Senado.

Alexandre Curi também evitou uma guerra direta com Cristina.

Os dois, de certa maneira, preservaram-se mutuamente.

Curi apostou principalmente no discurso de segurança pública e chegou a defender a retirada das câmeras corporais utilizadas por policiais, argumentando que o equipamento poderia inibir a atuação dos agentes.

E AS PROPOSTAS?

É justamente aqui que o debate deixou uma pergunta incômoda.

Quem vai enfrentar o tamanho da máquina pública?

Em meio a acusações sobre corrupção, STF, Lava Jato, segurança, ideologia e alianças partidárias, faltou uma discussão mais profunda sobre redução de despesas administrativas, corte de privilégios, enxugamento da máquina pública e redução da carga tributária.

Nenhum dos principais candidatos transformou o corte de cargos comissionados em uma bandeira central.

Também faltou uma discussão mais objetiva sobre o tamanho das estruturas de assessoria parlamentar e sobre o custo da máquina política.

Para o eleitor que paga impostos, essa talvez tenha sido uma das maiores ausências da noite.

AFINAL, QUEM GANHOU?

Se a pergunta for quem teve o melhor desempenho político, a resposta depende do eleitor.

Dallagnol saiu fortalecido entre aqueles que continuam identificados com a Lava Jato e o discurso anticorrupção.

Gleisi mostrou experiência política e aproveitou a divisão dos adversários para defender o governo Lula e atacar seu principal antagonista.

Filipe Barros foi combativo e falou diretamente com o eleitor bolsonarista, mas também expôs a disputa interna pela direita.

Cristina Graeml adotou uma estratégia mais moderada, evitando confrontos que poderiam prejudicá-la dentro do próprio campo conservador.

Alexandre Curi procurou ocupar o espaço de candidato governista, com foco principalmente na segurança pública.

Dr. Rosinha, por sua vez, funcionou como uma espécie de apoio político a Gleisi em vários momentos do debate.

A ELEIÇÃO ESTÁ ABERTA

O debate da Band não decidiu a eleição.

Mas mostrou onde pode estar o principal problema da direita: a fragmentação.

Se Dallagnol, Filipe Barros, Cristina Graeml e Alexandre Curi continuarem disputando o mesmo espaço eleitoral, a esquerda poderá encontrar uma oportunidade preciosa para garantir uma das duas cadeiras.

E é exatamente por isso que a eleição para o Senado no Paraná pode se transformar, nas próximas semanas, em uma das disputas mais imprevisíveis do país.

São duas vagas. Muitos candidatos. E cada vez menos espaço para errar.

No fim das contas, talvez a pergunta mais importante deixada pelo debate da Band não seja apenas “quem foi melhor?”

Mas sim:

QUEM CONSEGUIRÁ SOBREVIVER À GUERRA PELO MESMO ELEITOR?

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