PF aponta contrato de “taxa de sucesso” entre empresário e grupo ligado a Lulinha para negócios com o governo Mensagens analisadas pela Polícia Federal indicam acordo de intermediação com comissão vinculada a contratos públicos; pagamentos...
PF aponta contrato de “taxa de sucesso” entre empresário e grupo ligado a Lulinha para negócios com o governo
Mensagens analisadas pela Polícia Federal indicam acordo de intermediação com comissão vinculada a contratos públicos; pagamentos à empresa de Roberta Luchsinger chegaram a quase R$ 3 milhões
A Polícia Federal identificou um contrato de intermediação firmado entre o empresário de tecnologia Cleber Ribas de Oliveira e a empresa da lobista Roberta Luchsinger, prevendo o pagamento de uma espécie de “taxa de sucesso” vinculada à concretização de negócios com órgãos públicos.
Segundo informações obtidas pelo UOL a partir da investigação, a relação entre Ribas e Roberta começou em 2023. As conversas analisadas pelos investigadores mostram que, em março daquele ano, os dois discutiram a possibilidade de estabelecer um acordo no qual a remuneração estaria relacionada ao fechamento de contratos com o governo.
Em 24 de maio de 2023, Ribas encaminhou a Roberta uma minuta do contrato de intermediação. O documento estabelecia uma comissão pela “apresentação das partes para celebração de negócios” e foi assinado no dia seguinte.
Pagamentos de quase R$ 3 milhões
A investigação identificou, ao longo de aproximadamente três anos, pagamentos que somam quase R$ 3 milhões à RL Consultoria, empresa ligada a Roberta Luchsinger.
De acordo com os dados apresentados pela PF, os valores partiram de diferentes empresas e pessoas relacionadas ao grupo empresarial de Cleber Ribas:
- R$ 1,5 milhão da Ribas Informática;
- R$ 150 mil da Santos Soluções;
- R$ 1 milhão da 3Structure;
- R$ 300 mil de José Alberto Abdon, sócio da Santos Soluções.
A previsão inicial do contrato era de que os pagamentos fossem realizados por meio da Santos Soluções Empresariais. Posteriormente, porém, os investigadores identificaram transferências originadas de outros CNPJs.
A PF também apura a relação societária envolvendo Roberta, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e Fernando Bittar. Segundo os investigadores, os dois seriam sócios ocultos da RL Consultoria — hipótese que ainda integra o conjunto de apurações.
Conversas mencionam contratos públicos
As mensagens analisadas pelos investigadores mostram que, depois do início da relação comercial, Roberta e Ribas passaram a discutir oportunidades de negócios em diferentes órgãos públicos.
Entre os alvos estava a Dataprev, estatal responsável por soluções de tecnologia e processamento de dados do governo federal.
Em junho de 2023, Roberta enviou ao empresário uma relação de agendas que teria articulado em Brasília, envolvendo órgãos como Geap, Ministério de Portos e Aeroportos e Correios. A Dataprev aparecia como uma das negociações ainda em confirmação.
Em uma das conversas, segundo a investigação, Roberta afirmou que havia “envolvido o Palácio”. A PF considera que a expressão poderia fazer referência ao Palácio do Planalto, mas a interpretação ainda é objeto da investigação.
O empresário também demonstrava interesse em um contrato de serviços de nuvem da Dataprev. Em setembro de 2023, chegou a encaminhar uma minuta prevendo uma comissão de 15% do valor de eventual contrato para a RL Consultoria.
Apesar das articulações, a investigação não encontrou, até o momento mencionado no relatório, indícios de que a empresa de Ribas tenha conseguido vencer a licitação pretendida na Dataprev. A própria estatal informou que não possui contrato com a empresa.
Contratos milionários no Ministério do Desenvolvimento
Outra frente da investigação envolve contratos firmados por empresas de Ribas com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social.
Segundo levantamento divulgado pelo UOL, após o início dos pagamentos à empresa de Roberta, o grupo empresarial de Ribas venceu uma disputa e assinou, em dezembro de 2023, um contrato de aproximadamente R$ 31 milhões com o ministério.
A empresa também teria recebido cerca de R$ 37 milhões do órgão entre o início de 2024 e 2026, incluindo um novo contrato de aproximadamente R$ 19,2 milhões em 2026.
O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social afirmou que os procedimentos de contratação foram conduzidos pelas áreas técnicas responsáveis e que os documentos apresentados pelas empresas foram analisados de acordo com as exigências dos processos de contratação.
PF investiga possível influência política
O conjunto de mensagens levou a Polícia Federal a aprofundar a apuração sobre uma possível utilização de relações pessoais para facilitar negócios com órgãos públicos.
A corporação investiga se os pagamentos realizados à empresa de Roberta tinham apenas natureza comercial ou se poderiam estar relacionados à atuação de pessoas próximas ao governo na tentativa de viabilizar contratos.
Em mensagens analisadas pelos investigadores, Roberta também faz referências a despesas relacionadas a Lulinha. Em uma conversa de 2025, por exemplo, ela teria escrito “menino cobrando as passagens” ao cobrar um pagamento. A PF interpreta que “menino” seria uma referência a Fábio Luís Lula da Silva, hipótese baseada no contexto de outras conversas.
A investigação, entretanto, ainda precisa estabelecer a natureza e a finalidade de cada pagamento, bem como verificar se houve efetivamente favorecimento ilegal em contratos públicos.
Defesas contestam interpretação das mensagens
A defesa de Lulinha afirmou que os relatórios produzidos durante a fase inicial da investigação apresentam hipóteses que ainda precisam ser verificadas e que os documentos não constituem, por si só, prova definitiva de irregularidades.
O advogado Guilherme Suguimori também criticou a divulgação de trechos selecionados das comunicações e afirmou que os dados completos deverão ser analisados no processo.
Cleber Ribas, por sua vez, declarou que não pode comentar adequadamente mensagens sem ter acesso aos dados brutos das interceptações e ao conjunto completo da investigação. O empresário afirmou ainda que seus contratos com o governo federal foram celebrados de forma transparente e seguindo os procedimentos previstos em lei.
A defesa de Roberta Luchsinger informou que não se manifestaria sobre o caso.
Investigação continua
O caso agora depende do aprofundamento das diligências da Polícia Federal para esclarecer a finalidade dos pagamentos, a atuação de cada um dos envolvidos e eventual relação entre os contratos privados de intermediação e os negócios obtidos pelas empresas de Ribas junto ao poder público.
Até o momento, as informações divulgadas representam hipóteses e elementos de investigação da PF, e não uma conclusão judicial sobre a existência de crimes. A apuração deverá determinar se os pagamentos correspondem a serviços legítimos de consultoria e prospecção ou se houve utilização indevida de influência para obtenção de contratos públicos.
Curitiba News – foto: reprodução
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