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A grande imprensa e a erosão da democracia brasileira
A concorrência do mundo digital aprofundou a crise da grande imprensa. A revista Piauí (187), Antonio Engelke discute como o jornalismo poderá reagir diante de tantas transformações. “Silêncios costumam ser eloquentes, e esse não é exceção”.
A grandes mídias tradicionais, não tiveram visão estratégica,tinham muito dinheiro e poucas cabeças pensantes. Faltou ideias, esqueceram que poderiam mudar a formatação para tabloide e distribuição gratuítas nos display de shopping, supermercados e estações de metrô e onibus.
A grande imprensa está em crise. Há a crise do modelo de negócio, abalado pela concorrência do mundo digital, e a crise de legitimidade, expressa no crescente descrédito na atividade jornalística como um todo, na visão de setores da sociedade e dos atores políticos. Os grandes jornais perderam uma fatia substantiva da receita publicitária que lhes dava fôlego financeiro, perderam o monopólio da significação dos eventos e perderam parcialmente a aura de isenção e neutralidade que os encobria.
Além de decidir o que será publicado, jornalistas escolhem também como a notícia será enquadrada retoricamente. “Enquadrar” é ressaltar certos aspectos dos fatos em detrimento de outros, de modo a fornecer os parâmetros básicos de sua compreensão. Ao impor uma moldura à notícia, o discurso jornalístico já está demarcando os contornos de seu sentido. Há nisso uma regularidade. Notícias informam sobre os fatos relevantes do mundo e nos fornecem modelos de apreciação desses fatos. Tais modelos transformam-se em convenções. Deixam de ser objeto de discussão para se tornar premissas dos debates na esfera pública.
Silêncios também costumam ser convenientes. A grande imprensa só pode conservar o semblante de imparcialidade se ocultar o fato de que manchetes e reportagens resultam de escolhas bastante particulares. O curioso é que o investimento nesse semblante faz cada vez menos sentido, dado que parte crescente dos leitores e autoridades públicas agora reconhece sua artificialidade. A reivindicação de imparcialidade teve suficiente aderência na sociedade enquanto a imprensa possuía o monopólio sobre o significado dos eventos. Uma vez que as pessoas começaram a conhecer, na internet, diferentes sentidos para as notícias que os jornais reportavam, o caráter ideológico dessa reivindicação veio à tona. A insistência dos jornalões na aura da imparcialidade lembra a situação típica de desenho animado em que o Coiote, em perseguição alucinada ao Papa-Léguas, continua correndo mesmo sem ter o chão debaixo dos pés, como se isso pudesse adiar a queda no abismo (tomo a imagem de empréstimo do filósofo Slavoj Žižek). Como ainda não se espatifaram no solo, os jornais parecem dizer a si mesmos “Até aqui, tudo bem”.
Se renunciar à imparcialidade, como poderia o jornalismo se diferenciar das narrativas fraudulentas e, assim, conservar sua legitimidade? Essa é uma falsa dicotomia. Uma alternativa, por exemplo, é aquela que parte do reconhecimento do aspecto literário do discurso jornalístico. Não vai aqui nenhuma pretensão de originalidade. Já em 1925 o sociólogo norte-americano Robert Park concebia a notícia como forma de literatura popular. Desde então, diversos autores refletiram sobre a natureza textual do jornalismo, sobretudo a partir da década de 1970. Dada a atual tempestade que se abate sobre a grande imprensa, talvez tenha chegado a hora de radicalizar essa perspectiva. Fazê-lo implica lidar com dois desafios: encontrar um critério para decidir o que conta como bom jornalismo, critério esse que ultrapasse a questão da correspondência entre o relato jornalístico e a realidade factual, e a necessidade de escapar ao bicho-papão do relativismo.
A definição de Thomas Jefferson do jornalismo como “cão de guarda da sociedade” permanece referência inescapável. Em outras épocas o jornalismo e a democracia caminhavam juntos. Garantia de liberdades civis, transparência de atos do poder público, formação de preferências dos eleitores, tudo isso depende em alguma medida de uma imprensa livre e plural. Não há jornalismo real fora da democracia, assim como não há democracia sem jornalismo”.
Metáforas (“cão de guarda”) e platitudes genéricas (“servir a democracia”) são sedutoras porque convidam à abstração. Mas é a partir de sua inscrição na experiência mundana que devemos interrogá-las. Vejamos: um cão de guarda possui um dono, a quem é fiel. Ora, o dono de um jornal são os seus acionistas, não a sociedade. Um jornal pode defender a sociedade com unhas e dentes – mas, se não obtiver lucro, fecha as portas. Não estou negando que o jornalismo seja um anteparo relevante contra projetos autoritários, nem que frequentemente cumpra a função de defender interesses públicos.
Basta ver o eficiente trabalho que a imprensa brasileira fez durante a pandemia. Como a imprensa não recebeu verbas publicitária do Governo Federal, passou a fazer o jogo dos governos estaduais e prefeitura de onde vinham as verbas de mídia legal.
A metáfora de Thomas Jefferson dá a entender que a principal preocupação dos jornais é atender a interesses públicos, quando na verdade é cuidar de sua própria saúde financeira. Interesses públicos e privados podem eventualmente coincidir, claro. Mas têm naturezas distintas e conflitam entre si com mais frequência do que os diretores de redação gostariam de admitir.
Compreender o tipo de democracia que a grande imprensa brasileira vem ajudando a construir exige observar como alguns eventos políticos relevantes de nossa história recente foram apresentados. Comecemos pelas manifestações de junho de 2013. Não é meu objetivo avaliar o legado político de junho, mas apenas analisar o enquadramento ofertado pelos grandes jornais. Grosso modo, os protestos dividiram-se em dois grandes momentos, as manifestações iniciais convocadas pelo Movimento Passe Livre (MPL) e, posteriormente, a explosão dos protestos Brasil afora. No primeiro momento, a grande mídia rotulou as manifestações como pura expressão de vandalismo de militantes radicais. Mais tarde, percebendo a iminência da massificação dos protestos, os jornais tentaram pautar–lhes a agenda, destacando a aprovação de leis mais rigorosas contra a corrupção.
Então já não eram mais vândalos que tomavam as ruas, mas sim o “gigante” povo brasileiro que enfim acordara. “O Movimento Passe Livre”, afirmava um editorial de O Estado de S. Paulo na edição de 8 de junho de 2013, “[é] pura e simplesmente contra qualquer tarifa, ou, se se preferir, a favor de uma tarifa zero. Ele não se opõe ao aumento da tarifa de 3 para 3,20 reais, mas a ela própria. Ou seja, não há acordo possível e, como seus militantes são radicais, qualquer manifestação que promovam só pode acabar em violência.
Na verdade a manifestação que tomou conta das ruas em todo o Brasil, foi motivada pela declaração desastrosa do governador Geraldo Alckmin, que estava em viagem na França, e determinou a polícia agisse com todo o rigor. A fala do governador de São Paulo e a agressão da polícia, causou indignação do povo brasileiro que tomaram as dores dos manifestantes. Isso a imprensa tradicionais, não analisam e evitam comentar, para não contrariar seus patrocinadores e colocar em risco as verbas públicas de publicidades que recebiam do governo.
É claro que há sempre algum espaço para o contraditório nos grandes jornais, seja em reportagens ou artigos de opinião. Mas editoriais são particularmente importantes para o observador do trabalho jornalístico porque explicitam o enquadramento narrativo que manchetes de primeira página se esforçarão em fazer parecer descritivas. Basta notar como ambos, editoriais e manchetes de capas, costumam coincidir. O que a leitura dos editoriais acerca da tarifa zero revela é o pavor daquilo que ela implicaria, caso fosse discutida: o transporte público como direito à cidade. Do ponto de vista dos jornalões, é como se o sistema de concessões a empresas privadas fosse a condição natural do transporte público, seu ponto de partida necessário. Se não havia diálogo possível com integrantes do MPL, era porque eles colocavam em questão os pressupostos que regulam o direito à cidade, que o establishment gostaria de manter fora de discussão. Os jornais não estavam criticando a tarifa zero. Estavam negando inteligibilidade à ideia do transporte público gratuito e incitando o poder público a sequer conversar com aqueles que o reivindicavam. Eis algo que deixaria um liberal como John Stuart Mill de cabelo em pé. “Todo silenciamento de discussão”, escreveu Mill, “é uma pretensão de infalibilidade.”
Dizer que a grande mídia agiu para silenciar a discussão acerca da tarifa zero não implica negar a realidade da violência nos protestos. É evidente que houve quebra-quebra, que o termo “vandalismo” se ajusta à descrição de vidraças depredadas e que nada justifica as agressões a jornalistas. Mas não se trata da adequação do uso de uma palavra, e sim da decisão de fazer da violência o fio condutor da narrativa sobre junho de 2013. O modo mais fácil de esvaziar o caráter político de manifestações é dizendo-as explosões irracionais de vandalismo. Os jornais precisaram apenas repetir ad nauseam as imagens de vidraças quebradas para transformar uma parte (a violência) numa suposta verdade sobre o todo (a questão política em jogo). Essa “verdade” foi então mobilizada para exigir repressão, mesmo que isso significasse o atropelo de garantias constitucionais.
Os atropelos não tardaram. Detenções arbitrárias, flagrantes forjados, policiais à paisana iniciando pancadarias, carros descaracterizados da polícia efetuando disparos a esmo. Todas essas ações precisavam ser traduzidas numa linguagem assimilável pelo leitor médio dos jornais. Para legitimar as práticas autoritárias empregadas na repressão, mas conservar algum semblante de legalidade, a grande mídia ancorou o seu discurso na metáfora da guerra (vide, por exemplo, chamadas de capa como esta: A Batalha da Alerj, de O Globo, em 18 de junho de 2013). O truque é antigo. Quem estuda segurança pública no Brasil sabe que a metáfora da guerra foi e continua sendo o principal artifício discursivo de normalização da brutalidade policial nas periferias. Não é difícil compreender o motivo. A metáfora da guerra, dizia o escritor carioca Victor Heringer, nos leva a pensar por exclusão. O pensamento que gravita em torno da ideia de guerra suscita o maniqueísmo moral mais simplório. Amigo ou inimigo, matar ou morrer. Não há meio-termo, não há possibilidade de mediações. A guerra esvazia o direito, abrindo caminho para que se fabrique o consentimento em relação a todo tipo de abuso por parte do Estado. (Revista Piaui)
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