Com Lula liderando as pesquisas e o eleitorado de direita concentrando forças no campo conservador, presidentes do Senado e da Câmara fazem movimentos que podem redesenhar o mapa político de Brasília A eleição presidencial de...
Com Lula liderando as pesquisas e o eleitorado de direita concentrando forças no campo conservador, presidentes do Senado e da Câmara fazem movimentos que podem redesenhar o mapa político de Brasília
A eleição presidencial de 2026 começa a produzir um movimento que pode ser decisivo para a próxima composição do Congresso Nacional: enquanto Lula aparece na frente de Flávio Bolsonaro nas pesquisas de primeiro turno, importantes lideranças do chamado Centrão começam a se aproximar do presidente da República.
O movimento tem dois nomes de enorme peso em Brasília: Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado, e Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara dos Deputados.
Não se trata apenas de afinidade política. Nos bastidores, a disputa pelo comando do Congresso e a sobrevivência eleitoral de deputados e senadores pesam fortemente nas decisões.
A matemática do Centrão
As pesquisas mais recentes mostram Lula liderando o primeiro turno. No levantamento CNT/MDA divulgado em 11 de agosto, o presidente aparece com 42,4%, contra 28,7% de Flávio Bolsonaro. Em outro levantamento recente, BTG/Nexus, Lula marcou 40% e Flávio, 35%. Os números, entretanto, também mostram que a disputa pode se estreitar no segundo turno.
É justamente essa fotografia eleitoral que começa a influenciar os movimentos de Brasília.
Para parlamentares do Centrão, a lógica é pragmática: se o eleitorado identificado com a direita tende a concentrar seus votos nos candidatos conservadores para o Legislativo, resta aos partidos de centro buscar espaço junto ao eleitorado que apoia Lula.
É a velha política de sobrevivência eleitoral: cada grupo procura estar próximo de quem pode garantir votos, estrutura e espaço de poder.
Alcolumbre olha para o Senado
Davi Alcolumbre voltou a intensificar o diálogo com Lula.
Somente nos últimos dias, os dois se encontraram mais de uma vez. Em 14 de agosto, Lula recebeu novamente Alcolumbre no Palácio da Alvorada, no terceiro encontro entre os dois em apenas dez dias. A reaproximação acontece depois de um período de desgaste entre o governo e o presidente do Senado.
Politicamente, Alcolumbre tem muito a ganhar mantendo canais abertos com o Palácio do Planalto.
A presidência do Senado é uma das posições mais poderosas da República e sua sucessão dependerá de uma complexa negociação entre partidos e bancadas. O apoio do futuro presidente da República pode ser um ingrediente importante nessa equação.
Não por acaso, Lula e Alcolumbre voltaram a conversar sobre pautas de interesse do governo no Congresso, entre elas o fim da escala 6×1 e a PEC da Segurança Pública.
Hugo Motta também fez sua escolha
Na Câmara, o movimento ganhou contornos ainda mais explícitos.
Hugo Motta anunciou apoio à candidatura de Lula à Presidência da República depois que o Republicanos decidiu não apoiar nacionalmente nenhum dos candidatos e adotou posição de neutralidade. A decisão deixou os diretórios estaduais livres para escolher seus caminhos.
Na Paraíba, Motta declarou que o diretório estadual considera Lula a melhor opção para o país.
A movimentação tem também uma forte dimensão eleitoral local. Motta busca a própria reeleição e articula a eleição de seu pai, Nabor Wanderley, para o Senado. Lula teve 66,6% dos votos na Paraíba em 2022, um desempenho que ajuda a explicar o cálculo político do presidente da Câmara.
Ou seja: não é apenas Brasília que está sendo levada em consideração. É o voto do eleitor paraibano.
O Centrão não escolhe lado. Escolhe espaço
O que começa a ficar evidente é que o Centrão pode desempenhar novamente o papel de fiel da balança na eleição.
O grupo não possui, necessariamente, uma identidade ideológica única. Sua força está justamente na capacidade de negociar com diferentes governos e preservar espaço institucional.
Se Lula chegar ao segundo turno como favorito, uma parcela desses parlamentares poderá estar ao seu lado.
Mas existe uma segunda possibilidade que ninguém em Brasília ignora.
Se a eleição chegar ao segundo turno, o cenário pode mudar completamente.
Os candidatos de direita que hoje dividem votos no primeiro turno podem se unir em torno de um único nome para enfrentar Lula.
Nesse cenário, os votos de candidatos como Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e outros nomes do campo oposicionista poderiam ser redistribuídos, transformando uma vantagem de primeiro turno em uma disputa muito mais apertada.
A própria pesquisa CNT/MDA mostra essa diferença: Lula lidera o primeiro turno com 42,4% contra 28,7% de Flávio, mas, no segundo turno entre os dois, a vantagem cai para 48% a 39,1%.
A eleição que interessa ao Centrão
É por isso que os movimentos de Alcolumbre e Motta precisam ser observados com atenção.
Mais do que escolher antecipadamente um vencedor para o Palácio do Planalto, os dois precisam garantir a própria sobrevivência política e a manutenção do poder dentro do Congresso.
E existe uma questão ainda maior:
quem controlar o Congresso em 2027 terá enorme influência sobre o próximo governo, seja ele de Lula ou de Flávio Bolsonaro.
O Centrão sabe disso.
Por isso, a aproximação com Lula pode ser menos uma declaração ideológica e mais uma aposta calculada no futuro.
Em Brasília, ninguém costuma apostar todas as fichas antes da hora.
Enquanto o eleitor vai às urnas para escolher o presidente, deputados e senadores já começam a jogar outra partida: a disputa pelo comando do Congresso Nacional.
E, nessa partida, Lula pode estar ganhando aliados antes mesmo de a campanha começar oficialmente.
A eleição ainda não terminou. Mas a negociação pelo poder de 2027 já começou. Curitiba News – foto Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)
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