Publicado por: Carlos Borges Bahia
Publicado em 25 de outubro de 2026

Lula vence mais uma vez: entre a consagração nas urnas, as denúncias de corrupção e a conta que continua chegando ao contribuinte

O Brasil escolheu seu caminho nas urnas. Mas, enquanto Brasília comemora a vitória, milhões de brasileiros continuarão diante dos mesmos desafios: impostos elevados, custo de vida, privilégios na máquina pública e a cobrança por respostas concretas no combate à corrupção e à criminalidade.

O Brasil é mesmo um país de contrastes. Terra de samba, pandeiro e Carnaval, de um povo trabalhador, criativo e resiliente, capaz de sorrir diante das dificuldades e de renovar suas esperanças a cada eleição. Mas também é uma nação que parece condenada a revisitar os mesmos dilemas políticos, como se a história insistisse em trocar os protagonistas sem necessariamente mudar o enredo.

Luiz Inácio Lula da Silva vence mais uma eleição e se prepara para um quarto mandato presidencial. Para seus apoiadores, a vitória representa a aprovação de um projeto político e a continuidade de políticas sociais. Para seus adversários, significa a permanência de um modelo de governo que merece ser submetido a uma fiscalização rigorosa, especialmente diante das controvérsias políticas, das denúncias de irregularidades e das cobranças por maior transparência na administração pública.

A democracia, porém, não admite atalhos: o resultado das urnas precisa ser respeitado, assim como o direito de questionar, fiscalizar e cobrar. Votar não significa conceder um cheque em branco. A vitória eleitoral não elimina responsabilidades, não encerra investigações e tampouco dispensa o governo de prestar contas à sociedade.

O povo tem o governo que escolhe?

A velha frase popular diz que cada povo tem o governo que merece. É uma expressão dura, mas que convida à reflexão sobre as escolhas coletivas e suas consequências.

Quando o eleitor decide, também define os rumos que deseja para o país. Entretanto, não se pode ignorar que milhões de brasileiros votam movidos por diferentes necessidades, expectativas, convicções e experiências pessoais. A escolha democrática não transforma todos os eleitores em responsáveis individuais por cada decisão futura do governo.

A questão central é outra: o que fará o país com a oportunidade que acaba de conceder ao presidente reeleito?

O Brasil precisa saber se os próximos anos serão marcados por avanços estruturais ou pela repetição de disputas ideológicas, promessas grandiosas e problemas que atravessam governos de diferentes partidos.

O combate à corrupção precisa ser permanente, sem seletividade política. As investigações devem avançar com independência, as denúncias precisam ser apuradas e eventuais responsabilidades, comprovadas segundo a lei. Não basta acusar adversários ou transformar suspeitas em condenações antecipadas. O que a sociedade exige é transparência, fiscalização e punição quando os fatos e as provas assim determinarem.

O mesmo princípio vale para o crime organizado. Nenhum governo pode tolerar que organizações criminosas ampliem seu poder, intimidem comunidades ou desafiem a autoridade do Estado. A segurança pública precisa ser tratada como prioridade nacional, sem complacência com criminosos e sem abandono das garantias legais.

O imposto sai do bolso do trabalhador. E o retorno?

O brasileiro conhece bem a rotina de trabalhar, receber o salário e começar imediatamente a pagar contas.

Há impostos federais, estaduais e municipais, além de tarifas, taxas, pedágios e despesas essenciais que comprometem o orçamento doméstico. Na prática, a soma dessas obrigações, dos tributos sobre o consumo e dos custos de serviços básicos pode representar uma parcela expressiva da renda familiar.

A sensação de muitos contribuintes é a de que o Estado coloca a mão em seus bolsos antes mesmo que consigam decidir como utilizar o dinheiro conquistado com o próprio trabalho.

É preciso, entretanto, separar a percepção cotidiana dos números oficiais: não existe uma única taxa que represente a carga tributária efetiva de todos os brasileiros, e a afirmação de que cada trabalhador entrega metade de seus ganhos ao governo não pode ser generalizada sem considerar renda, consumo, patrimônio e os diferentes tributos incidentes.

Isso não diminui o problema. Pelo contrário: reforça a necessidade de discutir uma tributação mais simples, transparente e eficiente, capaz de reduzir distorções e evitar que o peso dos impostos comprometa o consumo, a poupança, o investimento e a geração de empregos.

O cidadão não exige apenas pagar menos. Exige saber para onde vai o dinheiro arrecadado e por que serviços públicos essenciais continuam apresentando deficiências apesar do volume de recursos movimentados pelo Estado.

Se a arrecadação é elevada, a população tem o direito de cobrar resultados proporcionais. Saúde de qualidade, educação eficiente, segurança, infraestrutura e atendimento público digno não podem ser promessas eternamente adiadas.

A máquina pública e os privilégios que desafiam a paciência nacional

Outro ponto que exige atenção é o custo de manutenção da estrutura estatal e a desigualdade entre os benefícios oferecidos a diferentes categorias do funcionalismo.

O Brasil precisa discutir, sem generalizações injustas, a remuneração de agentes públicos, os benefícios adicionais, os auxílios e os mecanismos que permitem pagamentos acima dos limites legais ou que suscitam dúvidas sobre sua justificativa.

Há servidores que trabalham diariamente em condições difíceis, especialmente nas áreas de saúde, educação e segurança. Esses profissionais não podem ser colocados no mesmo grupo daqueles que eventualmente desfrutam de vantagens excessivas ou de mecanismos remuneratórios pouco transparentes.

O problema não é a existência de servidores públicos, indispensáveis ao funcionamento do país. O problema surge quando a estrutura administrativa se torna cara, burocrática e incapaz de oferecer serviços de qualidade na mesma proporção dos recursos que consome.

Os chamados penduricalhos remuneratórios no serviço público, especialmente quando envolvem verbas indenizatórias, benefícios excepcionais ou pagamentos que levantam dúvidas sobre sua compatibilidade com os limites legais, precisam ser examinados com rigor e transparência.

No Judiciário, no Legislativo e no Executivo, a sociedade tem o direito de conhecer as regras, os valores pagos e os fundamentos legais de cada benefício. A autonomia institucional não pode servir de escudo contra a fiscalização pública.

O país precisa de uma administração que respeite o dinheiro do contribuinte. Privilégios injustificáveis, desperdícios e estruturas desnecessárias devem ser revistos, enquanto a remuneração legítima e os direitos legalmente assegurados precisam ser respeitados.

A pergunta que permanece é simples: quanto custa manter o Estado brasileiro e quanto desse investimento efetivamente retorna à população?

O quarto mandato e a responsabilidade de mudar o rumo

Com um novo mandato, Lula terá mais uma oportunidade de demonstrar que o governo pode conciliar políticas sociais, equilíbrio das contas públicas, crescimento econômico e respeito às instituições.

A tarefa não será pequena. O país precisa controlar despesas, melhorar a qualidade do gasto, estimular o empreendedorismo, recuperar a confiança de investidores e criar condições para que o setor produtivo gere empregos e renda.

Também será necessário enfrentar a burocracia, melhorar a infraestrutura e assegurar que os recursos destinados às políticas sociais cheguem a quem realmente precisa, com mecanismos eficientes de controle e avaliação.

O desenvolvimento não pode depender apenas do aumento da arrecadação ou da ampliação de despesas. Precisa resultar de produtividade, investimento, educação, inovação e oportunidades.

Se o governo conseguir avançar nessas áreas, terá condições de apresentar resultados que ultrapassem as fronteiras partidárias. Se falhar, encontrará uma sociedade cada vez mais exigente, pressionada pelo custo de vida e cansada de promessas que não se convertem em melhorias concretas.

A democracia não é patrimônio de um partido, assim como o Brasil não pertence a um presidente. O país é de seus cidadãos, inclusive daqueles que votaram na oposição e que continuarão exercendo o direito de criticar, fiscalizar e cobrar.

Boa sorte, Brasil!

No país do samba, do futebol e da criatividade, o brasileiro aprendeu a enfrentar crises sem perder completamente a esperança. Mas bom humor não paga impostos, alegria não reduz o preço dos alimentos e festa política não resolve os problemas de quem precisa de atendimento médico, procura emprego ou teme a violência.

A vitória eleitoral encerra uma disputa, mas inaugura uma nova etapa de responsabilidades. O presidente reeleito terá de governar para todos, inclusive para aqueles que não lhe deram o voto. E a oposição terá o dever de fiscalizar com firmeza, sem abandonar os fatos, a responsabilidade e o compromisso democrático.

O Brasil não precisa escolher entre crescimento econômico e justiça social, nem entre segurança pública e respeito à lei. Precisa de instituições que funcionem, dinheiro público bem aplicado, regras claras e governantes dispostos a prestar contas.

Que o quarto mandato não seja apenas mais um capítulo de uma longa história política, mas uma oportunidade real de corrigir erros, reduzir privilégios, combater a corrupção e melhorar a vida dos brasileiros.

Porque o povo pode até continuar sambando, mas não pode ser obrigado a dançar eternamente conforme a música de Brasília.

Boa sorte, Brasil! Que a conta do Estado seja transparente, que os privilégios sejam enfrentados e que a prosperidade finalmente chegue à mesa de quem trabalha.

Jornal Curitiba News

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