Publicado por: Carlos Borges Bahia
Publicado em 3 de dezembro de 2020

A máquina do Estado funciona sob a aparência de uma separação de três poderes que, para quem está na superfície, tudo parece bem, mesmo sob a mais densa tempestade.

Quando se começa a conhecer de verdade as vísceras desse monstro de apetite insaciável, tudo fica claro: trata-se de um espaço de trabalho quase anárquico.

Digo “quase anárquico” porque, na ausência de leis sociais formais, uma outra lei se impõe por natureza, a lei do mais forte. É assim que o Estado funciona, apesar de não parecer. Quem ousar mergulhar nessa engrenagem complexa contemplará desde brigas de ativistas nas ruas em busca de protagonismo até a busca por holofotes midiáticos das mais altas autoridades, passando pelas intrigas palacianas e disputas mortais entre assessores de primeiro, segundo e terceiro escalão.

Anarquia, a grosso modo, é isso: ausência de leis formais que constituem um Estado, inescapavelmente substituídas pela lei do mais forte. É exatamente assim que as coisas funcionam atrás da cortina, onde cada ato é dramático e “o filho chora e a mãe não vê“.

O que tento dizer aqui sob licença poética é que o Estado parece bonito, mas é feio. Parece bom, mas é ruim. Se apresenta como solução, mas é um problema. Sim, caro leitor, o Estado não é um centro de administração do bem público apenas, não se trata de um serviço análogo à administração de uma empresa com sócios e departamentos, não, pelo contrário, é um tremendo espetáculo bizarro revestido de sobriedade publicitária.

Eu te recomendo, antes de tentar compreender essa deformidade crua e viva, que no mínimo leia “Memórias de um sargento de milícias“, porque, se lá na metade do século XIX, Manuel Antônio de Almeida já avisava que, da porta para dentro do Estado, tudo se resolvia com sexo e poder, aqui na capital do País, cento e setenta e tantos anos depois, não é diferente.

Ele se maquia como uma bonequinha de porcelana, como uma ninfa grega se adorna, e, com a mesma pederastia de um senador romano, o ministro vai aos microfones, se dramatiza a vítima dos flashes da imprensa e profere as mais imundas estultices. “As urnas são seguras! Nós contamos tudo e te dizemos o resultado depois! Pode confiar!“, então a diva recebe aplausos do público pago para isto mesmo (os tais repórteres) e sai dali se sentindo supremo, digno de uma estatueta do Óscar. E faz isso uma vez por semana pelo menos.

Nunca fui muito de frequentar prostíbulos, mas suponho que o salário de um repórter seja equivalente. Se nas coletivas de imprensa colocassem pole dance, seria indiscernível. Pelo menos, nas publicações que saem logo a seguir, o trabalho está, obviamente, bem pago. O cliente por sua vez fica sempre satisfeito, muito satisfeito, de forma orgástica, tão satisfeito que volta sempre para comer de novo no mesmo prato, é só buscar o nome do jornalista no menu da emissora.

Não seria um absurdo se os sex-shops aparecessem com jornalistas infláveis para vender.

O jornalismo é, na verdade, a barreira que te impede de ver o Estado como ele é. É a turma que faz a publicidade do horror de forma tão eficaz que você acredita no final das contas, que se trata de ternura.

Essencialmente esse era o problema do cânone das leis romanas, as 12 tábulas e as jurisdições dos senatus consultum registradas nas fases daquela civilização, foram excelentes para regular o direito privado, mas nota zero para o direito público. Ecoou pela história e cá estamos nós. Assistindo a putaria comendo solta após o apagar das luzes.

É lagosta pra todo lado.

Se posso comparar o problema do Estado Moderno com o processo civilizatório de Roma, igualando por baixo as figuras políticas, o jornalismo não foge à regra: Acta Diurna foi o primeiro “jornal” conhecido da história, criado por Julio César em 69 a.C. e fazia exatamente o que nossos colegas contemporâneos fazem: “assessoria de imprensa voluntária e indiretamente remunerada por moedas de troca particulares“, ou, prostituição.

Haja simbiose. (Terça-Livre)

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