Publicado por: Carlos Borges Bahia
Publicado em 10 de janeiro de 2026

O presidente colombiano Gustavo Pietro, envolvido em corrupção e acusado de chefiar o narcotráfico, disse que temia ser capturado como Maduro, mas acredita que a ligação com Trump pode ter amenizado o clima de tensão.

Gustavo Petro pensou esta semana que, a qualquer momento, uma força de assalto poderia desembarcar no telhado da Casa de Nariño, a residência presidencial colombiana, e chegar ao seu gabinete. No Palácio, ele não tem um bunker para onde correr e se esconder, como Nicolás Maduro tentou fazer uma semana antes de ser capturado e colocado em um helicóptero que sobrevou Caracas durane a noite, rumo aos Estados Unidos. O presidente colombiano, de 65 anos, sentiu-se ameaçado pelas insinuações de Donald Trump de que algo semelhante poderia acontecer com ele.

Trump o chamou de viciado em drogas, bandido, narcotraficante e testa de ferro de Maduro. Ele o adicionou à Lista Clinton [a lista de indivíduos ou organizações sancionadas por supostos vínculos com o narcotráfico ou o crime organizado] e revogou seu visto. Petro, por sua vez, diz que se agarrou ao “povo” como um escudo contra o exército com o maior poder de fogo da história e à espada de Simón Bolívar, guardada como uma relíquia perto de si.

Um telefonema mudou tudo. Petro e Trump conversaram por uma hora na quarta-feira e, ao final, pareceram satisfeitos com a conversa e se despediram amigavelmente. Foi nesse mesmo espírito que Gustavo Petro chegou para a entrevista na quinta-feira, no final da tarde, em uma das salas do Palácio Nariño. Um assistente ajeitou seu cabelo antes que ele se sentasse, e outro lhe trouxe colírio.

Hoje, sua narrativa anti-imperialista se amenizou. Ele chega a dizer que suas posições sobre o combate ao narcotráfico ou a necessidade de uma transição na Venezuela, culminando em eleições, não são tão diferentes das de Trump. Petro até encontra algumas semelhanças entre eles. “Ele faz o que pensa, como eu. Ele também é pragmático, embora mais do que eu. Eu gosto de conversar”, brinca. Petro não quer mais conflitos com ele, por enquanto.

Pietro não tem muito tempo como presidente, apenas oito meses. A situação internacional, na qual se sente mais confortável, o distrai dos problemas internos. Sua presidência também foi marcada por diversos casos de corrupção envolvendo dois de seus ex-ministros, que estão atualmente presos, e a violência continua apesar de suas tentativas de pacificar o país.

No Natal, ele declarou estado de emergência econômica para cobrir um déficit de 16,3 trilhões de pesos (aproximadamente US$ 4,35 bilhões) no orçamento de 2026, uma decisão excepcional que reflete a fragilidade do clima político e econômico a cinco meses das eleições.

CONFIRA ALGUNS TRECHOS DA ENTREVISTA DO EL PAÍS

Pergunta: Você realmente tinha medo de sofrer o mesmo destino que Maduro?

Resposta : Sem dúvida. Nicolás Maduro, ou qualquer presidente no mundo, pode ser destituído se não se alinhar a certos interesses.

P: Você reforçou sua segurança de alguma forma?

R. Aqui nem sequer existe defesa aérea. Nunca foi adquirida porque os combates são internos. Os guerrilheiros não têm caças F-16 e o ​​exército não possui esse tipo de defesa.

P: Os seus serviços de inteligência alertaram-no para algum perigo real?

R. Não foi necessário. Trump vem dizendo isso há meses. Mas o que usamos aqui é a defesa popular, e é por isso que convoquei a resistência popular na quarta-feira [em manifestações que lotaram praças por toda a Colômbia].

P: Que impressão Trump deixou em você como pessoa?

R. Ele faz o que acha certo, assim como eu. Ele também é pragmático, embora mais do que eu. Eu gosto de conversar. As opiniões dele sobre muitos assuntos são bem diferentes das minhas. Mas, por exemplo, sobre tráfico de drogas, estamos em sintonia. Ele me disse algo que gostei: “Sei que muitas mentiras foram inventadas sobre você, assim como foram sobre mim.”

P: Você também conversou com Delcy Rodríguez, a nova presidente da Venezuela na ausência de Maduro. Qual é a margem de manobra dela com Trump, que diz estar “no comando” da Venezuela, pairando sobre ela?

R. Sou amiga dela. Ela está sob pressão tanto interna quanto externa. A acusaram de ser uma traidora. Ela vê a necessidade de fortalecer a unidade latino-americana, mas sua principal tarefa deveria ser unir o povo da Venezuela.

R. Todas as forças políticas que existem hoje na Venezuela devem continuar existindo. Eliminar algumas delas por meios violentos só trará mais violência.

P: Entre essas forças está María Corina Machado, a líder da oposição.

R. Ele precisa mudar de ideia. Ele não deveria ter tirado o Prêmio Nobel de Trump.

P: Digamos que você não seja um grande apoiador dela, mas como você se conforma com a ideia de que não serão ela ou Edmundo González que governarão, sendo que foram eles que venceram as eleições?

R. Não considero que tenham sido eleições livres.

Fontne El País

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