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Na Grande São Paulo, uma professora se via “de mãos atadas” enquanto alguns de seus estudantes desistiam das aulas remotas, alguns deles para trabalhar e ajudar suas famílias. No Rio, um jovem de 18 anos passou o ano inteiro sem acessar o aplicativo de ensino à distância da rede estadual, sem conseguir tirar dúvidas do conteúdo com os professores e sem saber se de fato aprendeu ou não. Em Manaus, uma escola descobriu, ainda no início da pandemia, que parte de suas crianças sequer tinha como se alimentar quando as aulas presenciais foram interrompidas.
As cenas acima ilustram as rupturas causadas pela pandemia nas escolas de todo o país, em um ano sem precedentes não só na saúde pública mundial, mas também na educação.
No mundo inteiro, o Unicef (braço da ONU para a infância) estima que 1,5 bilhão de crianças tenham sido afetadas pela interrupção no ensino presencial.
No Brasil, houve agravantes: as escolas ficaram fechadas há mais tempo do que grande parte do mundo, segundo levantamento de setembro da OCDE, Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, e cresce a desigualdade entre os alunos que conseguiram manter seu vínculo com a escola e os que correm, agora, o risco de ficarem ainda mais para trás ou abandonarem os estudos.
Duas pesquisas reforçam as preocupações, justamente em um momento de alta de casos de covid-19 que torna ainda mais desafiadora a reabertura segura das escolas.
No início de dezembro, pesquisa do Ibope para o Unicef com 1,5 mil famílias brasileiras apontou que, na média geral, apenas 3% dos entrevistados disseram que algum de seus filhos já haviam voltado para alguma atividade presencial na escola.
Mas essa média oculta uma diferença entre as camadas sociais: no subgrupo que ganha mais de cinco salários mínimos, o índice de crianças frequentando atividades presenciais subia para 22%.

E quando o Datafolha entrevistou, em setembro, pais e responsáveis por mais de 1 mil crianças brasileiras, 30% deles afirmaram ter medo de que seu filho acabasse desistindo da escola por não acompanhar as aulas remotas, fazendo com que a evasão escolar seja uma das maiores preocupações de escolas públicas em 2021.
Ao mesmo tempo, especialistas e mesmo educadores e alunos rejeitam a ideia de que 2020 tenha sido perdido: foi um ano também em que professores e famílias abraçaram a tecnologia, romperam barreiras de ensino e descobriram novas formas de interagir e de ensinar.
A mesma pesquisa do Datafolha aponta que pais estão participando mais da vida escolar dos filhos, e 71% deles passaram a valorizar mais o trabalho árduo de seus professores.
Outro avanço significativo para a educação vem de Brasília: em 17 de dezembro, depois de um ano de discussões e muitas idas e vindas no projeto, a Câmara dos Deputados aprovou a regulamentação do Fundeb, fundo de dinheiro estatal que financia a maior parte da educação básica brasileira e que foi sancionado no Natal pelo presidente Jair Bolsonaro.
Uma grande mudança do Fundeb, que passa a ser permanente, é que o governo federal precisará aumentar progressivamente seus repasses ao fundo, de 12% do total dele até 23% no ano de 2026. Com isso, Estados e municípios mais pobres esperam contar com mais recursos federais para suas escolas.
“O texto final (do Fundeb) fortalece a escola pública e é mais um passo decisivo para a garantia da educação pública, gratuita e de qualidade no país”, comemorou em nota a ONG Campanha Nacional Pelo Direito à Educação.
Diante de um ano letivo cujos efeitos serão sentidos por décadas na educação brasileira, a BBC News Brasil conversou com educadores, alunos e especialistas do setor para saber: o que foi perdido e o que foi ganho na educação em 2020?
‘Meus alunos desistiram de estudar’
No Dia do Professor, que foi comemorado em 15 de outubro, Luciana Viegas não se surpreendeu por ter recebido apenas “uma ou duas mensagens de parabéns”, em vez das dezenas que ganharia em anos menos turbulentos.
Professora de língua portuguesa e projeto de vida de ensino fundamental 2 (6ª à 9ª série) na rede estadual de São Paulo, Viegas foi perdendo contato com muitos alunos e suas famílias com o passar dos meses.
“O que tivemos foi a desistência: os alunos e as famílias desistiram de estudar”, conta à BBC News Brasil.
Mesmo com oferta, pelo governo do Estado, de plano de dados de internet e de aulas em diferentes mídias, “a gente vê a desigualdade social gritando na nossa cara. Tenho alunos convivendo com agressores em casa. Ou com parentes que acham que o ensino não é tão importante. (…) Ou são crianças que precisam ir para a rua vender bala no farol. A gente (professores) está se reinventando todos os dias, mas fica de mãos atadas. A criança que tem que escolher entre trabalhar e estudar não vai estudar”, lamenta Viegas.
O Brasil já era um dos países mais desiguais do mundo em educação no pré-pandemia e viu sua “crise de aprendizagem” crescer, aponta Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais (Ceipe-FGV).
“Uma coisa é (fazer quarentena em) uma casa com livros, com conectividade e com cômodos adequados. Outra é em casas com todos amontoados. Pais de classe média puderam trabalhar de casa, enquanto outros tiveram que ir à luta. E é muito desafiador para as crianças aprenderem sem a presença de adultos. Vimos um aprofundamento da nossa crise”, avalia.
“As crianças também estão sob mais riscos de exploração sexual, trabalho infantil e sem a rede de proteção social da infância que é a escola.” Informações BBC
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