Publicado por: Carlos Borges Bahia
Publicado em 6 de abril de 2026

Artistas e produtores refletem sobre a evolução das artes cênicas na capital e o papel vital do fomento público

A história de Curitiba nas últimas quatro décadas pode ser vista no crescimento de suas ruas e parques, mas ganha ainda mais vida pelas histórias contadas em seus palcos. O teatro curitibano atravessou o silêncio da censura durante o governo militar e a falta de espaços físicos até desaguar na efervescência dos grandes movimentos culturais, com destaque para o tradicional Festival de Curitiba, que este ano está na sua 34ª edição. Até 12 de abril, são mais de 400 atrações.

Anos 60: Os pioneiros e os palcos que ganharam nome

A base da cena teatral da cidade começou a se firmar na década de 1960. Foi um período de construção, impulsionado por talentos que hoje batizam nossos espaços culturais e fazem parte da memória afetiva da cidade. Basta circular pela capital para ver como esses pioneiros viraram endereços obrigatórios: o lendário Salvador de Ferrante dá nome ao famoso auditório do Guairinha; José Maria Santos, premiado no cinema e no palco, batizou o antigo Teatro da Classe; Cleon Jacques, expoente da vanguarda dos anos 1990, nomeia o espaço do Memorial Paranista; Antônio Carlos Kraide virou o palco do Portão Cultural; a brilhante Claudete Pereira Jorge foi eternizada no Teatro Novelas Curitibanas e a inesquecível Lala Schneider nomeia o primeiro teatro independente do Paraná, no Centro de Curitiba. 

Em 1963, 11 anos após a inauguração do Guairinha, o Curso Permanente de Teatro (CPT) foi criado pelo professor Armando Maranhão em parceria com Paschoal Carlos Magno. A idealização desse curso seria depois reconhecida como um dos marcos da consolidação do teatro profissional na cidade. A partir desse trabalho, foi criado o Teatro de Comédia do Paraná (TCP), que movimentou a cena trazendo diretores paulistas como Cláudio Corrêa e Castro e atores do quilate de Paulo Goulart e Nicette Bruno para atuarem ao lado dos locais na estreia de Um Elefante no Caos.   

De acordo com o ator e diretor João Luiz Fiani, que atualmente é o diretor de Ação Cultural da Fundação Cultural de Curitiba, o teatro curitibano se consolidou a partir de nomes como Lala Schneider, Cláudio Corrêa e Roberto Menghini, que começaram a solidificar a cena da cidade.

A busca por espaço

Teatro Paiol sendo restaurado na sécada de 70. Foto: Arquivo Público

Na virada dos anos 1970 para os 1980, Curitiba viveu um momento de explosão criativa. Novos grupos e atores surgiam e os espetáculos se multiplicavam. A comédia, vinda do Teatro de Comédia do Paraná, atraía grandes públicos. No entanto, essa energia esbarrava na falta de palcos.

“O grande problema é que nós só tínhamos o Teatro Guaíra para apresentar as peças. Nós não tínhamos lugar para deixar as peças em cartaz por mais tempo”, relembra Fiani. 

Foi justamente dessa urgência por novos espaços que a cidade passou a ressignificar suas estruturas. Um marco pioneiro e lendário desse movimento foi a inauguração do Teatro do Paiol, em 27 de dezembro de 1971. Um antigo paiol de pólvora do Exército, construído em 1906, foi reciclado e transformado em um inovador teatro de arena circular pelo arquiteto Abrão Assad.

A  necessidade de criar raízes e manter peças em cartaz por mais tempo também motivou artistas a abrirem seus próprios espaços nos anos seguintes. Em 23 de abril de 1994, exatamente no dia do aniversário da atriz Lala Schneider, João Luiz Fiani decidiu prestar uma homenagem rara, ainda em vida, inaugurando o Teatro Lala Schneider no Centro Histórico de Curitiba. Foi o primeiro teatro totalmente independente do Paraná. “O Teatro Lala, por exemplo, surgiu da necessidade de eu ter um espaço onde pudesse apresentar as minhas produções. Mal sabia eu que a minha peça Casa do Terror ficaria 30 anos em cartaz”, completa Fiani.

A janela para o Brasil

A criação do Festival de Teatro de Curitiba em 1992 transformou Curitiba em uma vitrine do teatro brasileiro contemporâneo. O evento, que tem apoio da Prefeitura Municipal de Curitiba, colocou a capital paranaense para conversar com o país inteiro.   

SECOM – Foto: arquivo

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