Publicado por: Carlos Borges Bahia
Publicado em 28 de julho de 2025

Juros altos, inflação, desemprego, descontrole no gastos com cartão de crédito, causam a crise financeira que atinge famílias brasileiras

O Brasil enfrenta uma crise silenciosa que se alastra por lares de todas as regiões do país, com mais de 77,8 milhões de pessoas endividadas. A dívida limita o poder de comprar do consumidor e afeta o comercio, que vende menos e a indústria vai reduzir a produção.

Os dados de junho do Mapa da Inadimplência da Serasa revelam que a inadimplente carrega, em média, uma dívida de R$ 6.128 por pessoa. No topo da lista, o cartão de crédito continua sendo o principal vilão, responsável por 27,5% dos débitos, e a armadilha do parcelamento automática que aumenta drasticamente a divida, que torna insustentável para o devedor.

No Distrito Federal, 61% da população adulta está com o nome negativado — o segundo maior índice do país no recorte por estados. Apesar dos mais de 64 mil acordos de renegociação fechados recentemente, a recuperação financeira ainda parece distante para muitos.

Em um contexto de juros elevados e poder de compra corroído pela inflação, manter as contas em dia se tornou uma verdadeira batalha. E os maiores adversários não são apenas os boletos no fim do mês: falta de planejamento, desemprego e emergências inesperadas agravam um quadro que exige mais do que matemática.

O acúmulo de empréstimos pode facilmente se transformar em uma bola de neve, como vivenciou a brasiliense Fernanda Mori, de 25 anos, auxiliar de logística. À medida que as dívidas se acumulavam e os prazos venciam, ela viu sua capacidade de pagamento se reduzir, tornando cada novo mês um desafio maior para manter as contas em dia. “Todas as dívidas que possuo atualmente são superiores a R$ 1 mil”, conta.

Diante da dificuldade financeira, o descontrole se instalou e as contas não pararam de chegar. “Usei o cartão de crédito para cobrir a falta de dinheiro que eu estava enfrentando na época. Como não conseguia pagar o valor total da fatura, a dívida foi se acumulando até virar uma bola de neve”, relata Fernanda.

Atualmente, a auxiliar de logística evita o cartão de crédito e tenta manter os pagamentos no Pix ou no débito. Ainda assim, admite que não sabe quando conseguirá quitar todas as dívidas. “Quando eu estiver mais estabilizada, com um emprego melhor e surgirem ofertas mais vantajosas”, projeta.

No caso de Eduardo Lugli, de 45 anos, que trabalha na área de contabilidade, o endividamento veio do uso descontrolado do cartão de crédito e da contratação de empréstimos bancários. “O que me levou a atrasar as parcelas foi a falta de um planejamento financeiro adequado e o desejo de dar uma vida de conforto à família, porém incoerente com a nossa renda familiar”, afirma. “Somado a isso, nos últimos tempos, o custo de vida aumentou muito, fazendo com que as dívidas se acumulassem”, completa.

Praticamente, toda a renda da família é utilizada para pagar as dívidas e o cartão de crédito acaba sendo utilizado para custear despesas de primeira necessidade, empurrando os débitos em atraso para o próximo mês, como explica o contador. “Pretendo realizar um planejamento financeiro, adequando os gastos mensais à receita familiar, realizando o corte das despesas supérfluas e renegociando as dívidas, buscando melhores condições de pagamento em comparação com as condições das dívidas atuais.”

Desenrola

Embora tenha beneficiado cerca de 15 milhões de pessoas, segundo dados do governo federal, o programa Desenrola Brasil ainda não conseguiu reduzir os índices de inadimplência para níveis inferiores aos registrados no período pós-pandemia.

Apesar disso, o porta-voz da Serasa, avalia que a iniciativa teve impacto positivo, especialmente ao estimular a economia, embora não tenha promovido uma mudança de comportamento entre os consumidores. “Acredito que o comportamento do usuário acaba não sendo preventivo, mas sim só corretivo. E isso acaba trazendo, novamente, esse cenário de aumento da negativação”, observa.

Educação financeira

A falta de educação financeira ainda é um dos principais entraves para o controle das finanças pessoais no Brasil, avalia o especialista e PhD em Educação Financeira, Reinaldo Domingos. Para ele, grande parte da população não tem o conhecimento necessário para compreender o funcionamento do crédito e as consequências do endividamento.

Fonte Correio Brasiliense – Foto Valdo Vigor

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