O casal que deixou a política depois de prisões e investigações reaparece no tabuleiro eleitoral do Paraná — agora apostando novamente no velho capital político construído nos bairros Por Carlos Bahia A política paranaense tem...
O casal que deixou a política depois de prisões e investigações reaparece no tabuleiro eleitoral do Paraná — agora apostando novamente no velho capital político construído nos bairros
Por Carlos Bahia
A política paranaense tem memória curta. Às vezes, curta demais.
O casal Beto e Fernanda Richa está novamente circulando pelos caminhos da política do Paraná. Depois de anos afastados do centro do poder, os dois voltam ao cenário eleitoral, cada um exercendo seu papel: Beto Richa como deputado federal e liderança do PSDB, enquanto Fernanda recupera a presença junto às comunidades e volta a ser apontada como peça importante na estratégia eleitoral do grupo. Em março, ela se refiliou ao PSDB e retomou a agenda junto às comunidades.
É o retorno de um sobrenome que já comandou Curitiba e o Paraná, mas que também ficou marcado por um dos períodos mais turbulentos da política paranaense recente.
A cena que o Paraná não esqueceu
Em 11 de setembro de 2018, Beto Richa, então ex-governador e candidato ao Senado, foi preso temporariamente em uma operação do Gaeco que investigava suspeitas de fraude em licitações, corrupção, lavagem de dinheiro e obstrução da Justiça relacionadas ao programa Patrulha do Campo.
Na mesma operação, Fernanda Richa também foi presa temporariamente. Segundo as informações divulgadas à época pelo Ministério Público, Beto era suspeito de liderar uma organização criminosa, enquanto Fernanda era apontada como possível auxiliar em esquema de lavagem de dinheiro. Todos os envolvidos negaram as acusações.
Aquela manhã mudou a trajetória política da família.
A imagem do ex-governador deixando sua residência escoltado pela polícia correu o Paraná e o Brasil. Para uma família acostumada ao poder, muita gente aos seus pés, à solenidade dos palácios e aos grandes eventos políticos, a prisão representou uma ruptura brutal.
E, como o próprio Beto Richa teria relatado posteriormente em conversas com jornalistas e proprietários de jornais de bairro, a situação foi uma humilhação para a família.
Mas a política, como se sabe, raramente fecha definitivamente suas portas.
O episódio da Quadro Negro
Também é necessário separar os episódios.
A Operação Quadro Negro investigou suspeitas de desvios de recursos destinados à construção e reforma de escolas estaduais. Beto Richa foi posteriormente alvo de medidas judiciais relacionadas ao caso.
Em 2024, porém, decisões judiciais determinaram a anulação de atos processuais relacionados a Richa em diferentes investigações. No caso da Quadro Negro, o TRE-PR anulou ações após decisões do STF que mudou o entendimento para anular às operações Lava Jato, Rádio Patrulha, Piloto, Integração e Quadro Negro.
Portanto, as antigas acusações em condenações ficaram como se nada tivesse acontecido. Esse é um dos princípios elementar usado para definir o Estado de Direito.
Mas também não se pode apagar a história política.
E é justamente essa memória que volta a ser colocada à prova agora.
Da prisão ao retorno à Câmara
Depois de sobreviver politicamente aos processos e às turbulências judiciais, Beto Richa conseguiu retornar às urnas.
Em 2022, foi eleito deputado federal pelo Paraná com 64.868 votos, e assumiu o mandato no lugar de Jucelito Canto, que teve sua candidatura indeferida. Atualmente busca a sua reeleição para continuar na Câmara dos Deputados.
A trajetória é, no mínimo controversa.
Um político que foi investigado e chegou a ser preso por corrupção, voltou ao Congresso Nacional e agora novamente aparece no tabuleiro político paranaense.
É a velha política mostrando que, no Brasil, raramente alguém está definitivamente fora do jogo.
Fernanda: o outro lado da estratégia
Beto vai a comunidade com a Fernanda para reforçar seu eleitorado, com as velhas promessas, e Fernanda se faz de mãe dos pobres, é nesse cenário, que eles exploram a memória afetiva da época em que estavam na gestão da cidade.
Durante os anos de Prefeitura de Curitiba e do Governo do Estado, ela construiu uma imagem associada à área social e à presença nos bairros mais pobres. Usando o dinheiro dos contribuintes para se fazer de “papai noel”, e se aproveitando da ignorância dos menos favorecidos.
Eles eram figuras conhecidas nas periferias. Visitavam comunidades, participavam de reuniões, ouviam reivindicações como determina as Leis de Diretrizes.
A Fernanda, em março deste ano, ao reaparecer em um ato político no Parolin, foi recebida com entusiasmo e declarou: “Estou de volta.”
A frase pode parecer simples.
Politicamente, entretanto, é poderosa.
Porque Fernanda não está voltando apenas para aparecer em fotografias. Sua presença tem potencial eleitoral.
E os próprios movimentos políticos esquecem do passado negativo e seu nome chegou a ser sondado para composições majoritárias, inclusive como vice. O seu retorno às comunidades passou a ser observado como ativo político do grupo Richa. Mas, logo entendeu que na majoritária o discurso é face-a-face, e a verdade velada, poderia vir com força bruta.
A “mãezinha” dos bairros
Durante o governo Beto Richa, Fernanda construiu uma imagem de protetora com as comunidades carentes, coisa comum da política de cabresto.
Em certa ocasião, acompanhei pessoalmente uma dessas reuniões no Palácio Araucária.
A cena ficou gravada na memória.
Uma mesa comprida, com aproximadamente 20 metros. Na cabeceira, Fernanda, ladeada por assessoras. Ao longo da mesa, mulheres das comunidades disputavam espaço para falar.
Não era uma reunião política convencional.
Era quase uma audiência de devoção.
“Fernanda, você é nossa mãezinha.”
“Fernanda, nos ajude.”
“Precisamos disso.”
“Precisamos daquilo.”
A relação emocional era evidente.
Para aquelas mulheres, Fernanda não era apenas a esposa do governador. Era alguém venerada pelos pobres que dependiam de suas migalhas, porém, cria-se uma relação pessoal com aquela população.
As pessoas das comunidades são simples e ingênuas, tem memória curta. Por isso são redutos promissores muito disputado pelos políticos.
O passado que ainda incomoda
Mas existe uma pergunta que não pode ser ignorada:
o eleitor paranaense esqueceu?
Talvez alguns tenham esquecido.
Outros, certamente, não.
As investigações envolvendo Beto Richa e seu entorno político deixaram marcas profundas. A Operação Rádio Patrulha, por exemplo, investigou suspeitas de direcionamento de licitações e pagamento de propina no programa Patrulha do Campo.
Entre os personagens que apareceram naquele universo estavam empresários e integrantes do governo.
A investigação também alcançou pessoas próximas ao ex-governador.
Anos depois, decisões judiciais anularam atos processuais de diferentes processos relacionados às operações. Isso faz parte da história jurídica do caso e precisa ser respeitado.
Mas a política é diferente da Justiça.
A Justiça decide responsabilidades jurídicas. O eleitor decide responsabilidades políticas.
O retorno de uma marca política
Beto e Fernanda Richa estão tentando reconstruir uma marca política.
Uma marca que foi poderosa.
Uma marca que governou Curitiba.
Uma marca que governou o Paraná.
Uma marca que teve influência sobre partidos, deputados, prefeitos e lideranças comunitárias.
Mas também uma marca que sofreu um dos maiores abalos de sua história em 2018.
Agora, oito anos depois daquele terremoto político, o casal reaparece.
Fernanda volta às comunidades.
Beto permanece no Congresso.
O PSDB tenta recuperar espaço.
E os bairros voltam a ser o campo de batalha.
A estratégia parece clara: reconstruir a confiança pela proximidade com o eleitor.
É uma aposta no velho método: voltar para onde as pessoas são menos esclarecidas e facilmente persuadidas.
A pergunta que fica
O retorno de Beto e Fernanda Richa mostra que o eleitor paranaense está cada vez exigente e cobra ações efetivas do poder público.
Para os admiradores do casal, eles representam parte de um grupo político no qual receberam favores e devem fidelidade.
Para os críticos, representam uma vergonha e decepção pelas decisões judiciais que insistem em proteger pessoas que não tem vocação e moral para servir o Estado.
Entre uma visão e outra está o eleitor.
E será ele quem dará a resposta nas urnas.
Beto Richa já descobriu que é possível sobreviver politicamente mesmo depois de todos os escândalos divulgados pelas mídias.
Fernanda Richa agora testa se ainda conserva o mesmo poder de mobilização que possuía antes de 2018.
Veja Também
Ministro Zanin aciona TRE e pede responsabilização “criminal” contra Dallagnol
O ministro Cristiano Zanin (foto), do Supremo Tribunal Federal (STF), enviou neste sábado (5) um ofício ao Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR) pedindo responsabilização dos envolvidos na exposição de seus dados fiscais e bancários,...
Feriadão em Curitiba? Veja as sugestões de passeio para aproveitar os dias de folga
De festival coreano a cinema com ingresso barato, o que não faltam são opções para curtir o feriado prolongado na cidade Moradores e turistas que escolheram Curitiba para passar o feriado prolongado contam com opções...