Publicado por: Carlos Borges Bahia
Publicado em 6 de outubro de 2026

Governador eleito precisará transformar força eleitoral em maioria parlamentar para aprovar as mudanças que prometeu ao Paraná

Passada a eleição, começa uma disputa tão importante quanto a própria campanha: a construção da governabilidade. O governador eleito Sérgio Moro terá pela frente o desafio de transformar sua vitória nas urnas em uma base parlamentar capaz de sustentar os projetos do novo governo na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep).

A Casa tem 54 deputados estaduais. Em uma votação que exija maioria simples, a aprovação dependerá, em regra, da maioria dos presentes; portanto, 27 votos não são automaticamente necessários em todas as matérias. Mas, politicamente, ter uma base de pelo menos 27 parlamentares representa uma margem importante para o Executivo enfrentar votações relevantes, evitar derrotas e demonstrar força política.

É justamente aí que começa o primeiro grande teste de Sérgio Moro.

O PL, partido do governador eleito, teria conquistado uma bancada expressiva, acompanhada por parlamentares do Novo e do Podemos que estiveram no campo político da campanha. Somado esse núcleo, o governo poderia partir de uma base inicial próxima de 19 deputados. Ainda assim, seriam necessários novos entendimentos para formar uma maioria estável.

E governabilidade não se constrói apenas com discursos. Exige diálogo, negociação, capacidade de articulação e, sobretudo, disposição para conversar também com quem não esteve no palanque durante a eleição.

MORO TERÁ DE NEGOCIAR

A tendência é que o futuro governo procure partidos que possam aderir a uma agenda de reformas administrativas, redução de despesas, melhoria da eficiência do Estado, segurança pública, infraestrutura e atração de investimentos.

Nesse cenário, nomes com forte capacidade de articulação política poderão ganhar importância nos bastidores.

O Progressistas (PP) aparece naturalmente como um dos partidos que poderão ser procurados. A presidente estadual da legenda, Maria Victoria, e o ex-deputado federal Ricardo Barros, conhecido pela experiência na articulação política, podem ocupar espaço importante nas conversas para a formação de uma base parlamentar.

Outro partido que poderá entrar no radar é o Republicanos, cuja bancada poderá ser estratégica para ampliar a sustentação do Executivo. O diálogo com a direção estadual da legenda também poderá fazer parte da estratégia de construção da maioria.

Mas é preciso separar duas coisas: uma bancada de apoio não significa necessariamente uma bancada submissa ao Palácio Iguaçu.

Se Moro pretende realmente implantar uma administração mais técnica, enxuta e com menor estrutura, terá de lidar com uma Assembleia que possui interesses próprios, lideranças independentes e parlamentares que também precisarão prestar contas aos seus eleitores.

A POSSÍVEL “BANCADA MORO”

Em uma projeção inicial — e aqui estamos falando de cenário político, não de uma composição oficialmente definida — o futuro grupo de apoio ao governador poderá ser formado por três blocos.

Primeiro bloco: PL, Novo e Podemos, reunindo os parlamentares mais próximos do projeto político que levou Moro ao Palácio Iguaçu.

Segundo bloco: partidos de centro e centro-direita que possam aderir aos principais projetos administrativos do governo, especialmente PP e Republicanos.

Terceiro bloco: deputados de outras siglas que, embora não façam parte formalmente da base, possam apoiar determinadas propostas consideradas importantes para o Estado.

Essa terceira categoria poderá ser decisiva.

Moro não precisará necessariamente transformar todos os deputados em integrantes formais de sua base. Poderá trabalhar com uma maioria variável, construindo apoio projeto a projeto.

É uma estratégia politicamente mais difícil, mas também pode preservar maior independência do Executivo.

O DESAFIO É MAIOR DO QUE CONTAR VOTOS

O novo governador chega ao governo com uma característica que poderá ser, ao mesmo tempo, sua força e sua vulnerabilidade: a promessa de mudança.

Uma administração mais enxuta, redução de estruturas, revisão de despesas e escolha de quadros técnicos podem encontrar resistência justamente entre setores acostumados à velha lógica de distribuição de espaços políticos.

Por isso, a montagem do governo será observada com lupa.

Se Moro prometer um Estado mais eficiente, terá de demonstrar que não pretende simplesmente substituir uma estrutura política por outra.

A população que votou pela mudança poderá cobrar coerência.

E a Assembleia também.

QUEM SERÁ O ARTICULADOR?

Outro ponto ainda em aberto será a escolha de quem fará a ponte entre o Palácio Iguaçu e a Alep.

O líder do governo terá uma missão delicada: negociar sem perder a identidade política do Executivo. Precisará conhecer o regimento, conversar com diferentes bancadas, antecipar crises e construir acordos sem transformar cada votação em uma crise de governo.

Esse personagem poderá se tornar uma das figuras mais importantes da nova administração.

A experiência mostra que governador sem articulação parlamentar pode ter dificuldade até mesmo para aprovar medidas consideradas simples. Por outro lado, uma base excessivamente ampla, construída apenas com distribuição de cargos e espaços, pode contradizer justamente o discurso de austeridade apresentado durante a campanha.

UMA POSSÍVEL CONFIGURAÇÃO

Considerando o cenário descrito e as forças políticas que poderão orbitar o novo governo, uma projeção inicial poderia ser organizada da seguinte maneira:

Núcleo mais próximo do governo:
PL + Novo + Podemos — aproximadamente 19 parlamentares.

Possíveis aliados prioritários:
PP + Republicanos — grupo que poderá ampliar significativamente a sustentação parlamentar, dependendo das negociações.

Apoios pontuais:
Deputados de outras legendas de centro e centro-direita, além de parlamentares que eventualmente apoiem projetos específicos do Executivo.

O resultado final, entretanto, dependerá das negociações que ocorrerão nas próximas semanas e, principalmente, da formação da Mesa Diretora, das comissões permanentes e da definição das lideranças partidárias.

O PRIMEIRO TESTE DE MORO

A eleição terminou. Agora começa outra disputa.

Sérgio Moro conseguiu chegar ao Palácio Iguaçu. Mas governar é diferente de vencer uma eleição.

O primeiro grande teste do novo governador poderá ocorrer justamente dentro da Assembleia Legislativa.

Ter 19 deputados próximos não será suficiente para garantir tranquilidade. Ter 27 ou mais também não significará necessariamente governabilidade.

O verdadeiro desafio será construir uma maioria sem comprometer o discurso de mudança que o levou ao governo.

Moro terá de escolher entre a velha política da troca de apoio por espaços de poder ou uma nova forma de relacionamento institucional com a Assembleia.

É nesse ponto que estará uma das principais perguntas do início de seu governo:

Sérgio Moro conseguirá construir uma bancada suficientemente forte para governar sem perder a independência que prometeu aos eleitores?

A resposta começará a aparecer muito antes da posse — nos corredores da Alep, nas reuniões partidárias e, principalmente, nas conversas reservadas entre o futuro governo e os deputados estaduais.

A possível bancada conservadora de Sérgio Moro ainda está em formação. Mas uma coisa já parece evidente: para governar o Paraná, o governador eleito terá de aprender a transformar aliados eleitorais em parceiros institucionais.** por Curitiba News

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