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Tudo não passava de pretexto contra o agronegócio do Mercosul
Caiu a máscara dos franceses. As alegadas preocupações com a preservação do meio ambiente na Amazônia e em outras áreas do Brasil era o argumento esgrimido apenas para evitar que o acordo entre União Europeia e o Mercosul fosse assinado. A evidência está no movimento de produtores rurais de todo o país que utilizaram tratores e caminhões, nos últimos dias, para interromper as principais vias de acesso a Paris. Além disso, jogaram esterco e fardos de alfafa em diversas rodovias. Tudo para impedir que o acordo entre os dois blocos seja assinado.
Em pouco tempo, agricultores da Bélgica se incorporaram ao movimento e trataram de sitiar a sede da UE. Jogaram ovos nas portas dos prédios e fizeram as tradicionais manifestações com muito discurso e algum fogo nos pneus. O motivo para tanta irritação com o possível acordo com o Mercosul é que a agricultura francesa, a maior da Europa Ocidental, não tem a menor capacidade de competir em preço e qualidade com os produtos originários dos países sul-americanos. Na França, na Bélgica, em Portugal e na Espanha, o setor agrícola é fortemente subsidiado. Sem subsídios e expostos à concorrência, eles temem desaparecer.
O motivo para tanta irritação, neste momento, é que o acordo está pronto para ser assinado. O presidente Emmanuel Macron foi obrigado, pelas circunstâncias, a enviar uma mensagem urgente de celular para a presidente da UE, Ursula van der Leyen, afirmando que o governo francês se opõe à assinatura do tratado entre os dois mercados. O caso ganhou maior relevância porque o lado brasileiro aceitou algumas ponderações dos europeus no quesito compras governamentais. Colocou cotas para defender empresas brasileiras e excluiu o sistema SUS do acordo. Os europeus concordaram sem qualquer discussão. Diante disso, e das garantias de que o governo brasileiro irá trabalhar para preservar o meio ambiente, restou apenas redigir o documento final e chamar as partes para assinar o documento. Neste momento, tocou o alarme no governo francês.
A situação ganhou maior dramaticidade porque o governo alemão se colocou a favor do acordo entre os dois continentes. Neste momento, corre uma negociação para aprovar ao menos em parte o acordo de maneira a não prejudicar os agricultores franceses. Ou seja, as seções que tratam de agronegócio passariam a figurar em outro documento, quando for possível. Os negociadores brasileiros dizem que o tratado não afeta tanto a agricultura francesa, porque os exportadores brasileiros colocam muitos produtos naquele mercado. Não haveria substancial modificação do atual cenário comercial neste setor.
As duas maiores economias da União Europeia — França e Alemanha — divergiram diante da estratégia comercial a ser utilizada com o Brasil. Os exportadores alemães tentam driblar o veto da França em relação a um acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a UE. Para a indústria de veículos da maior economia da Europa, o pacto entre os dois blocos poderia ser dividido em dois, salvando pelo menos parte das negociações que entram em seu 25º ano. Mas para o governo Emmanuel Macron enfrentar os agricultores grevistas é suicídio político.
Macron e van der Leyen tentam alcançar o acordo possível, uma vez que vários países do bloco são favoráveis ao acordo entre os dois continentes. O único que fechou questão contra foi o governo francês. Os agricultores exigem preços mais justos para os produtos, a continuação dos subsídios para o diesel agrícola (usado em tratores e outros veículos) e ajuda financeira para agricultores orgânicos, além de rejeitar o acordo negociado entre a União Europeia e os países do Mercosul. O primeiro-ministro Gabriel Attal reafirmou sua posição contrária ao bloco.
Em Bruxelas, cerca de mil tratores ocuparam avenidas horas antes de uma cúpula dos 27 países da UE. O principal ponto de tensão é o acordo que a UE e o Mercosul negociam há mais de 20 anos e que, segundo os agricultores, prejudicaria diretamente o setor na Europa. O ministro da Economia francês, Bruno Le Maire, destacou a disposição de travar uma batalha com a Comissão Europeia contra a assinatura do acordo em sua forma atual.
O líder da maior federação patronal da França, Patrick Martin, no entanto, apoia o acordo, ainda que tenha defendido verificar se os países envolvidos respeitam regras ambientais e sociais. É irônico assistir, daqui deste canto de mundo, aos campeões da liberdade, os arautos do livre- comércio, lutar para manter subsídios e privilégios que penalizam o consumidor francês. Ele será obrigado a adquirir produtos piores e mais caros. Conversa de subdesenvolvido. O mundo mudou.
André Gustavo StumpfJornalista (andregustavo10@terra.com.br)
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