Publicado por: Carlos Borges Bahia
Publicado em 9 de outubro de 2026

Manifestação na Rua das Flores reuniu estudantes, professores e movimentos sociais em defesa de Lula; participação expressiva expõe a capacidade de organização da esquerda, enquanto ofensas morais e ameaças, a adversários levantam questionamentos sobre o controle da massa e os limites dos debate democrático.

CURITIBA — A Rua das Flores, tradicional palco de manifestações populares e políticas na capital paranaense, voltou a ser cenário de mobilização. Nesta quinta-feira, uma manifestação em apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu estudantes, professores, representantes de movimentos sociais e integrantes de organizações ligadas à esquerda. A convocação, segundo o relato da organização, ocorreu pela internet e surpreendeu até mesmo participantes que não esperavam uma adesão tão expressiva, especialmente diante da previsão de chuva.

Segundo os próprios participantes, o ato suprendeu e poderia ter reunido cerca de 50 mil pessoas, número que precisa ser confirmado por estimativas independentes. Ainda assim, a mobilização descrita indica a capacidade de articulação de setores progressistas em Curitiba, cidade onde a disputa política frequentemente apresenta características distintas das observadas em outras regiões do país. A presença de estudantes e professores da Universidade Federal do Paraná (UFPR), além de representantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e de outros grupos, evidencia a participação de diferentes segmentos sociais na manifestação.

O episódio merece uma análise que vá além da contagem de participantes ou da identificação partidária dos manifestantes. Mobilizar milhares de pessoas exige organização, comunicação, engajamento e uma causa capaz de despertar sentimentos de pertencimento. A esquerda demonstrou, nesse ato, que continua dispondo de redes de articulação social e política. Ignorar essa capacidade seria um erro de análise. Da mesma forma, transformar a presença nas ruas em prova definitiva de aprovação popular nacional seria uma conclusão precipitada: uma manifestação representa os cidadãos que dela participam, não necessariamente o conjunto do eleitorado.

ENTRE A LIBERDADE DE MANIFESTAÇÃO E A RESPONSABILIDADE POLÍTICA

A defesa de Lula e o apoio à sua eventual reeleição fazem parte do exercício legítimo da liberdade de expressão e de manifestação. Em uma democracia, cidadãos têm o direito de defender suas convicções, criticar governos, apoiar candidatos e contestar adversários. Esse direito, entretanto, não elimina a responsabilidade pelo conteúdo das manifestações.

De acordo com o relato original, durante a caminhada foram entoadas palavras de apoio ao presidente e também expressões ofensivas dirigidas ao candidato Flávio Bolsonaro, incluindo referências de baixo calão e declarações maldosas ofensiva a dignidade moral com objetivo desmoralisadoralusões à sua suposta relação com o empresário Daniel Vorcaro. A reprodução dessas palavras não é necessária para compreender o episódio: o ponto central está na transformação da divergência política em ataque pessoal.

Críticas a candidatos são legítimas e necessárias. Questionamentos sobre suas decisões, alianças, propostas, condutas públicas e eventuais relações com interesses econômicos devem ser examinados com rigor. Mas insinuações e ofensas não substituem provas, assim como slogans não constituem argumentos. Se há fatos relevantes a esclarecer sobre qualquer figura pública, o caminho responsável é a investigação, a documentação e a cobrança por respostas — não a condenação antecipada por meio de palavras de ordem.

Esse critério precisa valer para todos os lados. A mesma exigência aplicada aos manifestantes favoráveis a Lula deve ser observada por apoiadores de Flávio Bolsonaro e de qualquer outro candidato. A democracia perde quando um grupo considera legítimo aquilo que condena no adversário.

UNIVERSIDADE: ESPAÇO DE FORMAÇÃO OU CAMPO DE DISPUTA IDEOLÓGICA?

A presença de estudantes e professores na manifestação abre outra discussão importante: qual é o papel das instituições de ensino na formação política dos jovens?

Universidades são espaços de produção de conhecimento, investigação, confronto de ideias e desenvolvimento do pensamento crítico. É natural que professores e estudantes tenham convicções políticas e participem da vida pública. A liberdade acadêmica protege a pluralidade e permite que diferentes correntes de pensamento sejam discutidas, inclusive aquelas que desafiam posições dominantes.

A questão surge quando a transmissão de conhecimento dá lugar à imposição de convicções, ou quando uma interpretação política passa a ser apresentada como verdade incontestável. A educação perde parte de sua finalidade quando o estudante é incentivado a repetir ideias sem examiná-las, seja qual for a orientação ideológica de quem as transmite.

Entretanto, a presença de universitários em um ato político não prova que tenham sido manipulados por seus professores. Essa conclusão exigiria evidências que não estão demonstradas no relato da manifestação. Jovens também participam de movimentos por decisão própria, por identificação com determinadas pautas, por experiências familiares, por influência de grupos sociais ou por avaliações pessoais da realidade brasileira.

O debate sério, portanto, não consiste em acusar professores de fabricar seguidores, mas em defender uma educação que ofereça instrumentos para questionar todas as correntes ideológicas. Se a universidade deve formar cidadãos autônomos, precisa acolher o contraditório, estimular a investigação e ensinar que nenhuma liderança política está acima do exame crítico.

A ZONA DE CONFORTO DAS PRÓPRIAS CONVICÇÕES

Há um fenômeno que ultrapassa partidos, universidades e movimentos sociais: a tendência humana de procurar informações que confirmem aquilo em que já acreditamos.

Nas redes sociais, nos grupos de mensagens e nas conversas cotidianas, é comum que as pessoas selecionem conteúdos compatíveis com suas convicções e rejeitem argumentos contrários antes mesmo de examiná-los. Esse comportamento pode alimentar ambientes de polarização, nos quais o adversário deixa de ser alguém com ideias diferentes e passa a ser tratado como inimigo.

O problema não pertence exclusivamente à esquerda ou à direita. Está presente em diferentes grupos e se fortalece quando a identidade política se torna tão importante que qualquer questionamento é interpretado como uma agressão pessoal.

A manifestação na Rua das Flores pode ser observada também sob essa perspectiva. A participação coletiva demonstra engajamento, mas o valor democrático de uma mobilização não deve ser medido apenas pela quantidade de pessoas nas ruas. Importam também a qualidade dos argumentos, o respeito às diferenças e a disposição para submeter as próprias convicções à análise dos fatos.

Uma sociedade politicamente madura não é aquela em que todos concordam, mas aquela em que as divergências podem ser expressas sem que o debate seja reduzido à hostilidade. A capacidade de ouvir o contraditório não significa abandonar princípios; significa reconhecer que convicção e certeza absoluta não são a mesma coisa.

JOVENS PRECISAM DE CONHECIMENTO, NÃO DE RESPOSTAS PRONTAS

Os jovens não devem ser vistos como páginas em branco à espera de alguém que determine o que pensar. São indivíduos capazes de construir opiniões, questionar autoridades, rever posições e participar ativamente das decisões que afetam seu futuro.

Cabe à família, à escola, à universidade e à sociedade oferecer conhecimento, referências históricas, princípios democráticos e ferramentas de análise. A finalidade da educação não é produzir seguidores de uma corrente política, mas cidadãos preparados para distinguir informação de propaganda, evidência de boato e crítica legítima de ataque pessoal.

Isso exige contato com diferentes perspectivas, leitura de fontes diversas, disposição para verificar informações e coragem para reconhecer erros. Exige, igualmente, que professores não sejam tratados automaticamente como agentes de doutrinação e que estudantes não sejam desqualificados por suas escolhas políticas.

A maturidade intelectual começa quando uma pessoa consegue examinar criticamente até mesmo as ideias com as quais mais se identifica. Quem só aceita argumentos favoráveis ao próprio grupo não está necessariamente defendendo uma convicção sólida; pode simplesmente estar evitando o desconforto de confrontar suas próprias certezas.

O RECADO DAS RUAS E O DESAFIO DA DEMOCRACIA

A manifestação na Rua das Flores deixa uma questão política relevante: a capacidade de mobilização continua sendo um componente importante da disputa eleitoral. A organização pela internet, a participação de estudantes e movimentos sociais e a adesão relatada mostram como causas políticas podem ganhar visibilidade quando encontram canais de comunicação e grupos dispostos a defendê-las.

Mas o significado eleitoral do ato não deve ser superestimado. Uma multidão em Curitiba não representa automaticamente o comportamento de eleitores de todo o Paraná, muito menos antecipa um resultado nacional. Para avaliar o alcance político da mobilização, seria necessário observar outros indicadores, como pesquisas eleitorais confiáveis, participação em diferentes regiões, propostas apresentadas pelos candidatos e a evolução das opiniões do eleitorado.

A democracia precisa das ruas, das universidades, dos movimentos sociais e da liberdade de manifestação. Precisa também de responsabilidade, respeito e compromisso com os fatos. Não basta reunir pessoas em torno de uma bandeira: é necessário que o debate público permita examinar ideias, cobrar resultados e confrontar argumentos sem abandonar a civilidade.

A força de uma democracia não está na ausência de conflitos, mas na capacidade de administrá-los sem transformar divergências em inimigos irreconciliáveis. A Rua das Flores pode ser palco de manifestações de esquerda, de direita ou de qualquer outra corrente. O que não pode desaparecer é o direito de pensar diferente — inclusive dentro da universidade, dentro dos movimentos sociais e entre os próprios apoiadores de uma mesma liderança.

JORNAL CURITIBA NEWS — Em política, mobilizar é demonstrar capacidade de organização. Convencer é algo mais exigente: requer argumentos, coerência e disposição para enfrentar o contraditório. E, em uma sociedade livre, nenhuma ideologia deveria temer cidadãos capazes de pensar por conta própria.

matéria Jornalista Carlos Borges Bahia – foto: Curitiba News

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