Publicado por: Carlos Borges Bahia
Publicado em 5 de outubro de 2026

E A DERROTA DE SANDRO ALEX EXPÕE OS LIMITES DO MODELO RATINHO JUNIOR

Vitória de Sérgio Moro no primeiro turno sinaliza desejo de ruptura política, enquanto o grupo governista fracassa na tentativa de transferir ao sucessor a força eleitoral do governador

Por Curitiba News

A eleição para o Governo do Paraná terminou com um resultado que vai muito além da vitória de um candidato sobre seus adversários. Sérgio Moro não apenas venceu a disputa: venceu no primeiro turno, com 50,10% dos votos válidos, impondo uma derrota política de grandes proporções ao grupo liderado pelo governador Ratinho Junior.

A pergunta que começa a ser feita nos bastidores políticos do Paraná é inevitável: por que o eleitor escolheu Sérgio Moro e, principalmente, por que rejeitou a continuidade representada por Sandro Alex?

A resposta não está em um único fator. A eleição foi resultado de uma combinação de circunstâncias: força eleitoral própria de Moro, identificação com o discurso de combate à corrupção, aproximação com o eleitorado conservador, desgaste da política tradicional e, sobretudo, uma possível fadiga do eleitor paranaense com um modelo de governo que tentou transformar sua estrutura administrativa e política em uma máquina eleitoral capaz de garantir a sucessão.

E foi justamente aí que o projeto governista encontrou seu maior problema.

MORO APOSTOU NA IDEIA DE RUPTURA

Sérgio Moro conseguiu ocupar um espaço político que o grupo governista não conseguiu preencher: o desejo de mudança.

Ex-juiz, ex-ministro da Justiça e senador pelo Paraná, Moro carregou para a campanha uma marca construída nacionalmente em torno do combate à corrupção e da Operação Lava Jato. Independentemente das controvérsias que marcaram sua trajetória política e jurídica, essa imagem permaneceu eleitoralmente poderosa entre parcela significativa do eleitorado.

O discurso apresentado durante a campanha encontrou terreno fértil em um eleitor que não queria simplesmente escolher quem administraria o Paraná nos próximos quatro anos, mas qual modelo político deveria prevalecer no Estado.

E a resposta das urnas foi contundente.

Com mais de 3,1 milhões de votos, Moro ultrapassou sozinho a marca de 50% dos votos válidos. Sandro Alex ficou em 25,37%, praticamente metade da votação de Moro.

Não foi uma vitória apertada. Foi uma vitória com dimensão política.

O PROBLEMA DO CONTINUISMO

Sandro Alex carregava consigo uma vantagem que, em qualquer eleição tradicional, poderia ser decisiva: a máquina política do governo estadual.

A candidatura governista chegou a reunir uma aliança que, segundo levantamento publicado em agosto, contava com 299 dos 399 prefeitos paranaenses — aproximadamente 75% dos municípios do Estado.

Ratinho Junior também mobilizou prefeitos, deputados, partidos e lideranças regionais em torno do discurso de continuidade.

Mas as urnas demonstraram uma realidade que os caciques partidários frequentemente esquecem:

apoio político não é necessariamente voto.

Prefeito pode apoiar. Deputado pode declarar apoio. Partido pode produzir propaganda. Lideranças podem ocupar palanques.

Mas, no silêncio da cabine de votação, o eleitor decide sozinho.

E o eleitor paranaense decidiu não entregar a sucessão de Ratinho Junior ao candidato apresentado pelo grupo governista.

RATINHO JUNIOR: UM GOVERNO COM INVESTIMENTOS PONTUAIS, BOAS PROPAGANDAS E LIMITADO

É preciso reconhecer que o governo Ratinho Junior apresenta realizações, especialmente na área de investimentos e infraestrutura. O próprio orçamento estadual de 2026 previa R$ 7,1 bilhões em investimentos o equivalente a menos de 10% da arrecadação, e o governo propagandiou que as faz obras em diferentes regiões do Paraná.

Foi um governo de estratégia, diante do alto índice de inadimplencia do IPVAT aproveitou o superátivit da arrecadação e fez a redução da taxa de 3,5% para 1,9% e também anestiou os inandiplentes antigo, que tinham o nome incluido no cadastros de devedores.

Mas eleição não é balanço contábil.

Um governo pode apresentar obras e, ainda assim, perder a eleição. Que obras? Que custo? Que prioridade? Que vantagem? Que benefício?

E é exatamente nesse ponto que a derrota governista merece ser analisada.

A administração Ratinho Junior tentou construir uma imagem de eficiência administrativa, grandes investimentos, forte presença institucional e ampla articulação política. Ao mesmo tempo, acumulou críticas relacionadas à política tributária, concessões e pedágios, comunicação governamental, gastos administrativos, escolhas políticas, prioridades de investimento e ao que adversários classificaram como excesso de exposição e de estrutura política, militarização da estrutura, muita badalação, ….

Essas críticas, não é isolada, mas, difundida em todos os cantos, que podem explicar um dos fatores da derrota eleitoral. Mas, quando somadas a um desejo de renovação, podem contribuir para formar um sentimento de desgaste.

PEDÁGIOS, IMPOSTOS E A DISTÂNCIA ENTRE O PALÁCIO E A RUA

Um dos pontos mais sensíveis para o eleitor paranaense continua sendo a questão dos pedágios. Em 2022, durante a camapanha de reeleição, o governador Ratinho Junior prometeu encampar o pedágio, depois das eleições entregou as pedageiras.

A renovação das concessões rodoviárias foi defendida pelo governo como necessária para garantir investimentos e melhorias na infraestrutura. Porém, para a grande parcela da população, a discussão sobre pedágio não se encerra na promessa de novas obras: envolve o preço pago diariamente por quem trabalha, transporta mercadorias ou precisa circular pelo Estado.

O mesmo raciocínio vale para os impostos.

Embora o governo tenha reduzido o IPVA, o tema tributário não pode ser analisado apenas por um imposto específico. O contribuinte observa o conjunto da carga tributária, os custos de circulação, combustíveis, serviços e o impacto dos tributos no orçamento familiar e empresarial.

É nesse território que a política encontra a vida real.

A OPÇÃO POR MORO

Moro conseguiu transformar sua candidatura em uma espécie de plebiscito sobre o futuro político do Paraná.

De um lado, estava a continuidade de um grupo que governava o Estado e pretendia permanecer no poder por meio de seu sucessor. grupo do governador era a continuidade de Beto Richa, que foi investigado e até preso na Operação Quadro Negro.

Do outro, um candidato que apresentou uma narrativa de ruptura, enfrentamento à corrupção, austeridade e mudança.

Para uma parcela expressiva do eleitorado, Moro representou algo diferente da política tradicional do Paraná.

E isso ajuda a explicar por que sua votação ultrapassou 50% dos votos válidos.

A escolha significa que a grande maioria dos eleitores aprovam integralmente a trajetória de ex-juiz e senador Sérgio Moro. Tamém significa que há rejeição do modelo de governo do Ratinho Junior.

O resultado permite uma conclusão política segura:

o eleitorado não aceita a ideia de continuidade administrativa viciada no mesmo modelo de gestão da velha política.

A GRANDE DERROTA DE RATINHO JUNIOR

Talvez a maior derrota do grupo governista não esteja apenas nos 25,37% obtidos por Sandro Alex.

Ela está na incapacidade de transferir a popularidade e a estrutura política de Ratinho Junior para seu candidato à sucessão.

O governador tinha 299 dos 399 prefeitos paranaenses, a maioria dos partidos, deputados, uma ampla estrutura de apoio, com muito recursos financeiro. Mesmo assim, Sandro Alex terminou muito atrás de Moro.

Isso revela que o chamado “capital eleitoral” de um governador não é propriedade particular nem patrimônio transferível automaticamente para um sucessor.

Voto não se transfere por decreto.

E essa pode ser a principal lição desta eleição.

O FIM DA ERA DA POLÍTICA DO PALANQUE?

O resultado de 2026 também deixa um recado para os partidos tradicionais.

Durante muito tempo, eleições foram construídas a partir de grandes alianças, prefeitos, vereadores, deputados, distribuição territorial de forças e tempo de propaganda.

Esse modelo continua importante.

Mas não é mais suficiente.

As redes sociais, a comunicação direta entre candidato e eleitor e, principalmente, a desconfiança crescente em relação à política tradicional modificaram profundamente o comportamento eleitoral.

O eleitor quer resultados, mas também quer transparência, responsabilidade, segurança, serviços públicos eficientes e respeito ao dinheiro público.

E quando não encontra isso — ou quando acredita que não encontra — pode simplesmente mudar de lado.

O NOVO RECADO DAS URNAS

A mensagem que todos devem entender:

o eleitor não aceita mais que realizações administrativas sejam utilizadas como salvo-conduto político.

Obras não compram votos.

Prefeitos não carregam votos automaticamente.

Grandes alianças não garantem vitória.

Propaganda não substitui credibilidade.

E uma máquina política poderosa pode ser derrotada quando não consegue convencer o eleitor de que sua proposta representa o futuro.

A vitória de Sérgio Moro, portanto, deve ser compreendida como uma vitória eleitoral e, ao mesmo tempo, como um sinal político de mudança.

O novo governador receberá um Estado com desafios enormes. E também herdará a obrigação de provar que o discurso de combate à corrupção, austeridade, eficiência e respeito ao dinheiro público não ficará apenas na campanha.

Porque agora a cobrança muda de endereço.

Moro deixou de ser o candidato da mudança. A partir de janeiro, terá de provar que consegue governar a mudança que prometeu.

O DESAFIO DO NOVO GOVERNO

O Paraná entra em uma nova etapa política.

O eleitor rejeitou a continuidade apresentada nas urnas e escolheu uma alternativa. Mas não entregou um cheque em branco.

Sérgio Moro terá de enfrentar os mesmos problemas que seus antecessores enfrentaram: saúde, educação, segurança, infraestrutura, transporte, pedágios, equilíbrio fiscal, desenvolvimento econômico e desigualdades regionais.

E terá de fazer isso com uma regra simples, porém difícil de cumprir:

menos marketing e mais resultado; menos privilégio político e mais transparência; menos desperdício e mais eficiência; menos discurso e mais entrega.

A eleição acabou.

Agora começa o verdadeiro desafio de Sérgio Moro.

E, para Ratinho Junior, fica a pergunta que talvez seja a mais importante de todas:

onde o seu governo perdeu a conexão com o eleitor que decidiu pela mudança?

Essa resposta será fundamental para compreender não apenas a derrota de Sandro Alex, mas o fim de um ciclo político no Paraná.

foto: Curitiba News

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