Publicado por: Carlos Borges Bahia
Publicado em 6 de abril de 2026

O sonho do carro próprio, durante décadas, foi um dos principais símbolos de ascensão social no Brasil. Especialmente entre jovens e famílias de classe média, adquirir um veículo zero-quilômetro representava independência, conquista profissional e estabilidade. No entanto, esse cenário mudou drasticamente: o chamado “carro popular” já não cabe no bolso de boa parte da população.

Nos anos 2000, o conceito de carro de entrada era claro. Praticamente todas as montadoras ofereciam modelos básicos com preços acessíveis, muitas vezes fixados em cerca de 7.200 dólares — o equivalente a aproximadamente R$ 40 mil em valores atualizados. Esses veículos vinham com o essencial: cores sólidas, poucos opcionais e, em alguns casos, promoções que incluíam itens simples como rádio, ar quente e desembaçador traseiro.

Duas décadas depois, a realidade é outra. Modelos considerados de entrada já se aproximam — ou ultrapassam — a marca dos R$ 100 mil, distanciando-se do conceito original de “popular”. Veículos como Fiat Mobi Like 1.0, Renault Kwid Zen e Citroën C3 Live Pack 1.0 são exemplos dessa nova realidade.

Atualmente, os preços médios desses modelos são:

  • Fiat Mobi Like 1.0: entre R$ 69.990 e R$ 74.390
  • Renault Kwid Zen: R$ 80.690
  • Citroën C3 Live Pack 1.0: R$ 84.990
  • Hyundai HB20 Comfort 1.0: entre R$ 90.190 e R$ 95.190
  • Volkswagen Polo Track: R$ 95.790
  • Chevrolet Onix 1.0 MT: R$ 99.990

Mas afinal, por que o carro popular ficou tão caro?

Especialistas apontam uma combinação de fatores. Um deles é a exigência legal de itens de segurança, como airbags duplos e freios ABS, além de tecnologias mais recentes como controle de estabilidade e assistente de partida em rampa. Embora importantes, esses equipamentos elevaram o custo de produção.

Outro ponto crucial é o reposicionamento das montadoras, que passaram a trabalhar com margens de lucro maiores. Estimativas indicam que a margem das fabricantes, que girava em torno de 17%, hoje ultrapassa 25%. Nas concessionárias, esse percentual pode chegar a 30%, especialmente nos modelos de entrada.

A carga tributária também pesa significativamente. Sem os subsídios que existiam no passado para carros populares, o setor enfrenta hoje impostos estaduais que podem chegar a 27,5%, além de tributos federais que utrapassa os 30% e elevam ainda mais o preço final ao consumidor.

O resultado é um mercado cada vez mais distante da realidade da maioria dos brasileiros. Diante desse cenário, cresce a preferência por veículos usados ou seminovos, considerados alternativas mais viáveis financeiramente.

Assim, o carro que antes simbolizava inclusão e mobilidade social passa a representar, para muitos, um luxo inacessível — refletindo não apenas mudanças na indústria automotiva, mas também as dificuldades econômicas enfrentadas pelo consumidor brasileiro. Fotos: André Paixão e Divulgação

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