Publicado por: Carlos Borges Bahia
Publicado em 11 de setembro de 2025

As manifestações motivadas principalmente pela corrupção generalizada e a proibição governamental de uso de redes sociais se transformaram em incêndios e atos violentos na terça-feira (9/9). Os protestos deixaram 30 pessoas mortas e mais de 1.000 feridas em dois dias de violência.

O que originou os protestos?

Os protestos foram desencadeadas pela decisão do governo, na última semana, de banir 26 plataformas das redes sociais, incluindo WhatsApp, Instagram e Facebook.

As redes sociais são uma parte importante da vida no Nepal. O país tem uma das maiores taxas de uso per capita no sul da Ásia.

O governo justificou a proibição como forma de enfrentar notícias falsas, discurso de ódio e fraudes online. Os críticos acusaram o governo de tentar controlar as plataformas para evitar uma campanha anticorrupção.

Embora a proibição tenha sido o catalisador da atual onda de protestos, os manifestantes passaram a apresentar um descontentamento muito mais amplo e profundo com a elite política do Nepal. Mobilizado pelas redes sociais e liderado por jovens, este protesto é diferente de qualquer outro já visto no Nepal.

Os manifestantes se identificam como parte da geração Z, e o termo se tornou um símbolo da união em todo o movimento. Embora não haja uma liderança centralizada, vários coletivos surgiram, fazendo convocações e compartilhando atualizações online.

Uma característica marcante desses protestos é o uso amplo de dois slogans: “nepo baby” e “nepo kids”.

Esses dois termos ganharam popularidade nas redes sociais do país nas últimas semanas, depois que vários vídeos viralizaram mostrando os estilos de vida dos filhos dos políticos no Nepal.

Os slogans se tornaram símbolo de uma frustração mais profunda com a desigualdade, à medida que os manifestantes comparam a vida da elite com a de cidadãos comuns.

Como a violência escalou?

Até a noite de segunda, 19 manifestantes tinham sido mortos em confrontos com a polícia.

As mortes alimentaram a raiva e os distúrbios na terça-feira, quando mais três mortes foram registradas. Esse número subiu para 30 nesta quarta-feira.

Segundo as autoridades, dois policiais estão entre as vítimas.

Os protestos continuaram intensamente, com uma multidão em Katmandu incendiando a sede do Partido do Congresso Nepalês que é parte da coalizão do governo e a casa do presidente do partido, Sher Bahadur Deuba, ex-primeiro-ministro do Nepal.

Centenas de manifestantes também invadiram e incendiaram o prédio do parlamento, quebrando janelas e pichando mensagens anti-corrupção nas paredes.

O Singha Durbar, um grande complexo que abriga escritórios do governo, também foi invadido, e a Suprema Corte anunciou nesta quarta-feira que adiou indefinidamente todas as audiências de casos pendentes por causa dos danos causados.

Entre os feridos está a esposa do ex-primeiro-ministro Jhalanath Khanal, que sofreu queimaduras graves quando manifestantes incendiaram sua casa na terça-feira.

Alguns veículos de imprensa noticiaram que Ravilaxmi Chitrakar tinha morrido, mas seu marido disse à BBC que ela permanece viva, em situação crítica, na UTI do Hopsital de Kirtiput, na capital do país.

Ela estava no andar de cima da casa quando o incêndio começou e encontrada inconsciente pelas equipes de resgate.

Como fica a situação política do país?

A renúncia do primeiro-ministro nepalês deixou um vazio na liderança do país. Não está claro quem vai substitui-lo e nem o que acontece a partir de agora.

Outros três ministros do primeiro escalão também deixaram os cargos.

Aparentemente, não há ninguém no comando.

Atualmente, o país é governado pelo presidente Ram Chandra Poudel, de centro-esquerda. Já o primeiro-ministro que renunciou é do Partido Comunista.

“Olhando para o futuro, acreditamos que a liderança do Nepal deva ser livre de vínculos com partidos políticos tradicionais, totalmente independentes e escolhida com base em competência, integridade e qualificação”, disseram os manifestantes da geração Z em comunicado.

“Exigimos um governo transparente e estável, que trabalhe em prol do povo e não para benefício de indivíduos corruptos ou elites políticas.”

Reportagem adicional de Pradeep Bashyal e Pawan Paudel in Kathmandu.

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