Publicado por: Carlos Borges Bahia
Publicado em 26 de maio de 2025

Um cavalo, um camelo e uma elefanta. A cena poderia facilmente ser uma apresentação de algum circo em outros tempos, quando era permitido às companhias possuírem animais. Neste caso, os três subiram ao palco do Guairão, maior auditório do Centro Cultural Teatro Guaíra (CCTG), em Curitiba, em 1993, como personagens da “Ópera Aída”, da Orquestra Sinfônica do Paraná (OSP). Essa história é parte da quarta reportagem da série especial da Ag~encia Estadual de Notícias sobre as quatro décadas da OSP.

Emprestada de um parque de Santa Catarina, Mila, a elefanta, representava uma das riquezas do faraó, retratada na “Ópera Aída”, de Giuseppe Verdi. Foi uma superprodução do Teatro Guaíra. Cerca de 400 pessoas participaram do espetáculo, entre dançarinos e um coro de vozes em um cenário que remetia ao Egito Antigo, com a orquestra no fosso, interpretando a trilha sonora.

Quem lembra bem do momento é a violinista Simone Savytzky, que integra a OSP desde a fundação, em 1985. “Tinha o desfile das riquezas do faraó, então entrava o cavalo, depois o camelo e por último a Mila, que tinha uma entrada triunfal”, destaca. “Animal é animal. Se a gente fica nervoso, imagine eles, com luzes, barulho, aplausos. Na estreia, o cavalo entrou super bem, mas o camelo ficou nervoso e, no meio do caminho, fez as necessidades no palco”, conta, rindo enquanto recorda o momento.

Logo uma ‘operação de guerra’ foi montada para limpar o palco. Com a ajuda de bailarinos e backstage, auxiliados por um rodo e um pano branco, tudo ficou limpo e a ópera seguiu. “Nós nem percebemos na hora porque ficamos tocando embaixo. Foi muito rápido”, aponta.

Já Mila era a estrela da noite. “Adivinha quem recebia os maiores aplausos”, brinca Analaura de Souza Pinto, pianista da OSP desde sua fundação. “Era uma coisa totalmente inusitada. Nós realmente tivemos uma elefanta de circo participando do espetáculo”, fala, ainda impressionada com o feito após mais de 30 anos.

A elefanta ficava no Círculo Militar do Paraná, há poucos metros do Teatro Guaíra. Era lá que passava a noite, até que uma situação inusitada aconteceu. “Numa das noites, o segurança ligou dizendo que a elefanta estava sentada em cima de um Fiat 147. Foi aquele alvoroço todo para tirar ela do Círculo Militar e recuperar o carro. Colocamos a Mila aqui em frente ao Guaíra, então virou um fenômeno”, acrescenta o diretor Artístico do CCTG, Áldice Lopes.

Desse momento em diante, Mila ficou embaixo de uma tenda, montada ao lado do Guaíra, o que ajudou a despertar a curiosidade do público e fazer da “Ópera Aída” um sucesso, o que não impediu que outros contratempos ocorressem. “Ela teve um incidente em uma das récitas. O treinador falava para o tenor nunca subir agarrando na orelha dela, e ele pegou. A elefanta ficou nervosa e ele caiu, mas nada de grave”, relata Simone.

Toda a entrada dos animais era ensaiada em uma logística milimetricamente desenhada, com tempo e marcações no palco. “Tinha uma câmera em que o maestro dava o sinal na hora que a Mila tinha que subir. Deu o sinal e a Mila não entrou. Tocamos o mesmo trecho e nada. Na terceira vez ela entrou e passou da marca de até onde poderia ir”, lembra a violinista. “Felizmente o treinador tinha o controle dela. Ficamos assustados, porque imagina se um elefante cai no fosso ele afunda, mas deu tudo certo.”

Mila e Simone ficaram amigas, com a humana levando maçãs para o lanchinho da elefanta

CORTINA SECRETA – A passagem de Mila pelo Guaíra e pela OSP também está marcada em uma obra do artista paranaense Poty Lazzarotto dentro do teatro, desconhecida pelo público em uma das cortinas corta-fogo, a do Guairinha. “Ele retratou cenas de espetáculos que assistiu, outros foram da memória emotiva dele, e então fez um desenho da elefanta sentada em cima de um Fusca e, logo atrás, o teatro”, explica Lopes, ponderando que Poty adaptou a história alterando o modelo do veículo.

As cortinas corta-fogo têm como objetivo exatamente o que seu nome descreve, evitando que, em caso de incêndio, as chamas não passem do palco para a plateia e vice-versa. Além do Guairinha, uma outra, também de Poty, está pintada no palco principal. As obras foram executadas por ele e pelas artistas plásticas Carmen Carini e Laila Tarran

“Na obra da cortina, Poty retrata as encenações de teatro que viu aqui, como ‘A Vida de Galileu Galilei’, de Bertolt Brecht, e ‘Mistérios de Curitiba’ e ‘O Vampiro e a Polaquinha’, baseadas em textos de Dalton Trevisan. No caso da Mila, não foi um espetáculo que ele assistiu, mas sim um acontecimento que viralizou no Brasil inteiro”, complementa o diretor Artístico. A cortina foi pintada em 1997, quatro anos depois da Ópera Aída, e um ano antes da morte de Lazzarotto.

ESCOLHA DO MAESTRO – Com os trabalhos para montar uma orquestra sinfônica paranaense a todo vapor, um dos desafios era justamente montar um quadro que pudesse estruturá-la, em especial com a escolha de um maestro que tivesse essa capacidade. A contratação seria por concurso público, e a equipe da Secretaria de Estado da Cultura da época montou um processo seletivo, capitaneado por Eleni Bettes, considerada uma das mães da OSP e uma das responsáveis por colocar a orquestra de pé.

Com o auxílio do paranaense Alceo Bocchino, referência no meio artístico e musical, foi montada a estrutura do concurso e uma banca avaliadora, formada por ele e por outros dois maestros: Cláudio Santoro, da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional, em Brasília; e Mário Tavares, da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Eram pilhas e pilhas de currículos, comenta Eleni. “O secretário me perguntou quem seria o maestro. Como chegaram muitos currículos após a divulgação da criação da orquestra, sugeri que fizéssemos um concurso. Com o apoio do próprio Bocchino, estruturamos o processo. Os candidatos tinham que analisar partituras sinfônicas, apresentar currículo e reger a orquestra montada para o processo”, afirma.

“Ao final do concurso, nenhum candidato foi considerado ‘pronto’ para ser o regente titular. A solução proposta foi nomear Osvaldo Colarusso, o melhor colocado, como maestro auxiliar, e Bocchino como maestro emérito, uma figura central, respeitada e de renome internacional, como compositor e regente”, conta.

Bocchino foi um dos nomes mais importantes da música brasileira, ex-aluno e parceiro de composições de Heitor Villa-Lobos e professor de Tom Jobim. Além da OSP, foi também um dos fundadores da Orquestra Sinfônica Nacional da Rádio MEC, atual Orquestra Sinfônica Nacional da Universidade Federal Fluminense, atuou nas orquestras Sinfônica Brasileira e Sinfônica do Theatro Municipal e regeu concertos de orquestras do exterior. Esteve como titular da OSP até 1990.

“Tenho saudades do mestre Bocchino. Era uma figura maravilhosa, um paizão. Tinha um ouvido absoluto, então aprendemos muito com ele. Foi realmente muito interessante e muito bom para todos nós”, exalta Antonio Mariano Thomazini, mais conhecido como Totó, que já foi músico da orquestra e hoje atua nos bastidores.

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