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O Grande Debate desta quinta-feira (2) discute a conduta do presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais. O tema veio à tona depois que o chefe do Executivo publicou um vídeo que mostrava um suposto desabastecimento na Ceasa (Central Estadual de Abastecimento) de Minas Gerais em meio à pandemia de coronavírus. A informação foi desmentida, inclusive com imagens do local em pleno funcionamento nessa quarta-feira (1º). Mais tarde, Bolsonaro apagou o post e pediu desculpas.
Em meio a esta situação, a pergunta para a economista Renata Barreto e o advogado Thiago Anastácio é: há perigo na forma como o presidente usa as redes sociais?
Primeira a falar, Renata fez o argumento inicial com críticas à conduta do presidente e pediu uma melhor comunicação dele com a sociedade. “Ele precisa tomar mais cuidado. A gente não pode nem elogiar. No dia anterior, eu tinha elogiado o pronunciamento dele, que tinha sido mais abrangente, coeso e firme, e logo depois ele fez essa publicação do vídeo – que era real, mas da limpeza, né?”, disse ela.
A economista ainda classificou que erros como esses causam desgaste entre o presidente, a imprensa e os eleitores, e defendeu que ele deve corrigir o jeito como utiliza esses canais oficiais. “Eu acho o seguinte, a gente não pode encarar a política como romance, mas também não dá para achar que está tudo normal. O presidente tem que tomar cuidado, sim, e precisa de uma comunicação melhor, uma equipe que realmente o auxilie e que não faça as coisas da cabeça dele. Acho que tudo isso é muito válido de ser pontuado, porque a comunicação é bastante importante e, no fim das contas, são polêmicas e desgastes desnecessários com a imprensa, com os eleitores e não eleitores dele durante um processo até bem delicado que estamos vivendo agora. Mas ele se desculpou. Todo mundo está sujeito a cair em fake news, porém ele é o presidente da República, e isso é bastante sério. Não é para tanto alarde, mas é uma postura que deve ser corrigida”, completou.
Tiago Anastácio, por sua vez, levantou a questão sobre a periodicidade das desinformações publicadas pelo presidente em suas contas. “A Renata tem absoluta razão sobre a questão do cuidado. A questão é que não é mais pontual. Isso tem acontecido quase que semanalmente e, às vezes, muito mais do que uma vez por semana. Nós precisamos lembrar de uma coisa muito simples. Hoje, com o mundo virtual – que, de fato, não existe, mas existe dentro das opiniões necessárias – um vídeo, uma manifestação no Twitter ou alguma coisa do tipo acaba se tornando a comunicação do presidente da República”, defendeu.
O advogado ainda citou a importância desse tipo de comunicação em uma época altamente conectada e criticou o fato dessa forma de diálogo ser administrada por alguém além do presidente, o que, para ele, serve para agravar a crise política. “Aquilo que um dia já foi o discurso ou uma entrevista se tornou a postagem de um vídeo, a repostagem da opinião de outra pessoa. E, hoje, nós soubemos que as redes sociais dele – a melhor forma de comunicação que esse governo poderia ter hoje no mundo mais abrangente – está na mão dos filhos dele, então temos esse problema muito grave. Primeiro, os filhos dele não têm mandato presidencial, não podem, a partir da própria cabeça, postar alguma coisa que não tenha anuência do presidente da República. Isso é muito grave. Nós estamos com problema de comunicação no momento em que o comunicar é o fundamental da liderança. Nós estamos, sim, com um problema muito sério, que vai cada vez mais agravando a crise política que estamos vivendo”.
O Grande Debate: a economista Renata Barreto e o advogado Thiago Anastácio
Foto: CNN (02.abr.2020)
Em um momento de maior divergência, os debatedores analisaram a questão da mudança de tom do presidente Jair Bolsonaro.
Renata afirmou que esse conflito vem do “problema de comunicação” por parte do presidente. “A espontaneidade dele é um problema e uma qualidade, mas não significa que ele não entenda essa crise e o quanto ela é grave. Ele tem essa comunicação do tio do pavê”, definiu ela.
Tiago rebateu: “Você coloca ele como virtuoso. Eu não sei como um líder não é capaz de se comunicar. Ele ainda não entendeu que é ser presidente da República”.
Argumentos finais
Para fechar o debate, Tiago Anastácio fez seus argumentos finais citando que são necessárias lideranças fortes e que acredita que passaremos pela crise do coronavírus levando algumas lições importantes.
“O que me parece muito importante nesse momento do país é a união. Nós estamos com muitos ruídos, temos pouca qualidade de liderança – e discordo plenamente com a Renata nesse aspecto. Me parece que da mesma forma que devemos ser críticos a governos de esquerda, devemos ser com os governos de direita, porque eles são governos. Um filme que gosto muito diz: ‘os governos mudam, mas as mentiras continuam as mesmas”, disse ele. “Os problemas de comunicação se tornaram graves, postergaram a solução dos problemas. A comunicação interna, como a Renata bem coloca, ou seja, a dissonância de ideia entre o presidente e os ministros nos trouxe para um problema de urgência. Nós temos urgência nessas reformas. Falta diálogo – um até mais informal, mas com os cuidados necessários. Deve haver, agora sim, um pacto”, completou.
“Nós não estamos dentro daqueles critérios que víamos antes, onde o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), da Câmara e do Senado disseram que precisávamos de um pacto federativo. Não! Nós não precisamos de um pacto federativo nas temperaturas normais, precisamos agora. Nas temperaturas normais, tudo se adequa naturalmente, a partir da lei. Agora sim, precisamos de um diálogo mais claro, mais livre, e o que o presidente tome as rédeas da comunicação, da liderança e capacidade de dizer. Eu tenho a minha posição sobre isso. Eu acredito que a liderança deve ser muito mais do que isso, mas é o que temos para hoje”, seguiu.
“Então que passemos por essa crise. Creio que o setor econômico é fundamental. Nós não podemos dissociar a economia e os próprios economistas, os bancos, o sistema financeiro da população. Mas vamos lembrar: somos uma democracia e vence sempre a necessidade da maioria, que não é aqueles com grande ou média renda. É de baixa ou pouquíssima renda, e que agora estão sentindo falta do estado. Nós precisamos de educação e saúde. E isso não é ser comunista, não é ser de esquerda – e acho que a Renata concorda comigo nesse aspecto. Nós vamos vencer essa crise e aprender isso sobre saúde e educação, espero que até que enfim”, finalizou.
Renata Barreto, por sua vez, voltou a defender mudança na comunicação, mas disse que, apesar dessa falha, o governo tem feito o que é necessário. “Em que pese o problema de comunicação, que é grave e vai continuar sendo enquanto não houver essa junção em relação ao que o presidente e o ministérios precisam fazer, as coisas estão sendo feitas como deveriam ser. Estou muito mais tranquila que temos Paulo Guedes na economia, Sergio Moro na Justiça, o [Luiz Henrique] Mandetta na Saúde e outros ministérios sendo tocados de maneira técnica e bastante firme e coesa. Apesar da comunicação do presidente, o que deve ser feito está sendo feito e a economia, como falei antes, não pode ser dissociada das pessoas. Ela é bastante importante”, argumentou.
A economista ainda disse que é preciso cautela com protagonistas nesta crise, que Guedes saberá o que fazer e que há tendência da economia brasileira se recuperar por conta dos índices que estava atingindo nos últimos anos. “E quando falamos de momento de união, a gente percebe que boa parte do jogo político e das forças políticas estão apenas querendo protagonizar algum tipo de heroísmo. E a gente precisa tomar cuidado e desconfiar de quem sugere medidas simples para problemas complexos. Quando o presidente fala que não quer cavar a própria cova, ele está falando algo muito simples: que precisa ter responsabilidade fiscal.”
“Por mais que a gente esteja em um momento de emergência, em que algumas regras do jogo podem ser alteradas ou flexibilizadas, a regra geral é a mesma e tudo deve ser feito de maneira responsável. E eu tenho certeza que Guedes é um ministro responsável que vai fazer as coisas como devem ser feitas. Então, hoje, a gente está em uma situação um pouco melhor do que estávamos há dois anos – com taxa de juros mais baixas, o risco Brasil minimizado – apesar de ter subido agora por conta da crise – e isso contribui para que a nossa volta seja mais positiva. A gente tem visto algumas previsões sobre uma volta em V. Espero que seja, e que a gente possa passar por essa crise e sair mais forte e fortalecido do que a gente entrou”, concluiu Renata.
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